Ferrovia: o patrimônio perdido

“…aumentam os prejuízos materiais e estéticos das cidades e até de saúde da população…” 

Pela vergonhosa lógica da subserviência econômica a que, historicamente, somos submetidos pela incompetência de nossos dirigentes em várias épocas, mesmo possuindo extensão continental e perfil geográfico adequado, o Brasil abdicou da ferrovia para construir estradas de rodagem muito mais caras e ineficientes.

O enorme esboço de linhas ferroviárias criado no tempo do Império e continuado no início da República foi descontinuado pelo interesse estratégico dos fabricantes de caminhões e automóveis, como Estados Unidos e Europa, que alteraram e determinaram nossa matriz de transporte por meio do poder econômico.

Depois de quase 100 anos de redução de investimentos em ferrovias e sem consolidar um sistema viário eficiente, o que pouco restou das estradas de ferro se encontra em estado acelerado de abandono e sucateamento.

Exemplos vergonhosos estão explícitos nos “corações” de praticamente todas as cidades da região que abrigam grandes espaços urbanos centrais de ferrovias absolutamente abandonados, degradados e sem manutenção, que poderiam estar muito bem urbanizados, transformados em praças ou em vias de acesso rápido entre bairros, como pode ser em Palmital.

Não obstante ao aproveitamento de parte do chamado patrimônio ferroviário que hoje serve à melhoria da estética urbana, ao lazer da população e a serviços públicos essenciais, o leito da linha férrea continua sem aproveitamento e também sem perspectiva de retomada de uso como meio de transporte.

Junto ao chamado “patrimônio da união”, concedido à iniciativa privada por meio de contratos que não exigem, ou não cobram, sequer a manutenção adequada dos espaços, temos também os “novos posseiros” que simplesmente se instalam no bem público mal cuidado e buscam regularizar a propriedade por meios judiciais igualmente lentos e ineficientes.

Enquanto as decisões não são tomadas em tempo hábil para melhor aproveitamento dos espaços ferroviários, aumentam os prejuízos materiais e estéticos das cidades e até de saúde da população que convive com terrenos baldios, tomados pelo mato e transformados em esconderijos do crime.

Mesmo diante dessa situação incômoda muito visível, ou escancarada, os agentes políticos não se manifestam sobre o tema e a população não cobra providências, em clara prova de conformismo com o absurdo dos melhores espaços das cidades condenados a patrimônios abandonados, ou perdidos.

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Cláudio Pissolito

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