‘Menino da Tábua’: conheça relatos de fé que transformaram túmulo de morador de Maracaí em destino de romeiros

Todos os anos em agosto, a pequena cidade de Maracaí (SP), com 12,8 mil habitantes, torna-se o destino de milhares de romeiros de todo o país, que vão até o município para celebrar o dia de Antônio Marcelino, o Menino da Tábua.

Forte figura religiosa da região, ele não é reconhecido oficialmente como santo pela Igreja Católica, mas ganhou fama de milagreiro pela fé popular.

Marcelino morreu aos 45 anos, em agosto de 1945, e, segundo a tradição popular, passou a vida inteira deitado em uma tábua, alimentando-se apenas de leite e água, e jamais teria visto a luz do sol.

Alguns relatos também dizem que, mesmo já sendo um homem, Marcelino tinha aparência de menino quando morreu. Como, na época, não existem registros fotográficos comprovados dele, a aparência do menino ainda é um mistério e permanece desconhecida até os dias de hoje.

Mesmo sem comprovações sobre sua aparência ou sobre os supostos dons atribuídos a ele, a fé popular relaciona ao Menino da Tábua diversos relatos de milagres e graças alcançadas, como curas, aprovações em concursos e conquistas de bens materiais.

Experiência que se tornou testemunho de fé

Atualmente morador de Londrina (PR), Alexandre Passarine Cordeiro, 54 anos,foi apresentado ao Menino da Tábua pelo avô, que vivia em Paraguaçu Paulista, quando ainda era criança. A devoção permaneceu mesmo depois de ele crescer.

Segundo Alexandre, aos 10 anos, ele presenciou um episódio que considera um milagre atribuído a Marcelino.

“Lembro que, em abril de 1982, eu estava lá no cemitério com a minha mãe. Eu era criança e ela que me levava. Tinha dois irmãos que eram cadeirantes e do Paraná, e eles falavam para a mãe: ‘Leva a gente no Menino da Tábua, que, quando chegar lá, a gente vai andar. Nós vamos andar quando chegar lá’. E eles foram de excursão e, quando chegaram ao portão do cemitério, um deles levantou da cadeira e saiu andando”, conta em entrevista ao g1.

Alexandre guarda a história com muita clareza na memória e conta que a situação tocou muitos outros romeiros, que também estavam no local para ver o túmulo de Marcelino.

“Eu me lembro que muita gente começou a chorar e bater palmas. Foi uma cena muito emocionante. Eu estava lá e presenciei isso e nunca mais esqueci. Eu me lembro disso como se fosse hoje. E foi no dia dele, na época”, recorda.

A fé por Marcelino é algo presente na família de Alexandre. A mãe dele passava o ano todo costurando roupas para doar no dia do Menino da Tábua, e ela sempre contou ao filho histórias do milagreiro que foram acompanhadas de perto por dona Malvina, vizinha da família.

“Minha mãe contava que a dona Malvina sempre falou das histórias dele. Dizem que a mãe dele chegou a costurar roupas nele e ele tirou, ninguém sabe como, já que ele tinha paralisia. E não é só isso, muitas coisas acontecem. A gente ouve muitos relatos de milagres, de pessoas que tiveram suas graças alcançadas, seus milagres. A gente ouve bastante isso, muitos relatos. Tem muita variedade, porque cada vez que vai, tem uma coisa diferente, uma história diferente”, afirma.

Alexandre costuma ir para Maracaí no final de semana dedicado ao Menino da Tábua — Foto: Arquivo pessoal

Alexandre costuma ir para Maracaí no final de semana dedicado ao Menino da Tábua — Foto: Arquivo pessoal

O sonho que veio antes da cura

Aparecida Donizete Pereira de Souza,de 65 anos, também teve uma experiência com Antônio Marcelino. Hoje ela mora em São Paulo, mas nasceu e viveu parte da vida em Marília. Foi lá que ela conheceu a história do Menino da Tábua e, segundo ela, foi curada de um problema grave nos ovários há cerca de 40 anos.

“Estava com os meus 25 anos e tinha um problema sério nos dois ovários. Eu estava tão mal que não tinha posição para nada, não podia sentar, nem deitar. Ficava mais no hospital do que em casa”, recorda.

Aparecida também conta que, logo que ficou sabendo da história de Marcelino, resolveu pedir um milagre.

“Eu já não aguentava mais. Era uma semana trabalhando e dez, quinze dias no hospital, tomando um antibiótico fortíssimo. Ouvi falar muito do Menino da Tábua e pensei: ‘Não custa nada fazer uma tentativa’. Entrei no meu quarto, me ajoelhei diante de uma vela e pedi: se ele realmente tivesse o poder de que tanta gente falava, que fizesse um milagre na minha vida, nem que fosse uma cura parcial”, conta.

E, segundo o seu relato, naquela mesma noite, sonhou com um menino nu e todo encolhido.

“Naquela noite, eu sonhei com ele. O mais impressionante é que eu nunca tinha visto a imagem do Menino da Tábua. Então fiz uma promessa: se ele me curasse, eu iria a Maracaí durante nove finais de semana, passaria o dia inteiro em jejum e só voltaria para casa à noite. Quando fui a Maracaí e vi a imagem dele, chorei muito”, disse.

“Depois dessa promessa, recebi a notícia dos médicos que estava curada e cumpri a minha promessa.”

Aparecida conta que fez promessa para Marcelino pela cura de um problema nos ovários — Foto: Arquivo pessoal

Aparecida conta que fez promessa para Marcelino pela cura de um problema nos ovários — Foto: Arquivo pessoal

Do cemitério para páginas de um livro

Cláudio Junior Ribeiro, de 57 anos, é nascido e criado em Maracaí e ouviu falar sobre Marcelino durante toda a infância. Sua família trabalhava no cemitério da cidade e, ao ver tantos relatos de fé envolvendo o milagreiro, em 1977 Cláudio resolveu escrever um livro para propagar a devoção ao menino.

“Eu resolvi escrever esse livro e fui amadurecendo a ideia. Minhas pesquisas duraram cerca de nove anos. Encontrei o irmão mais velho do Marcelino, que me contou toda a história. Muitas pessoas iam visitar o menino quando ele era vivo e tinha um detalhe muito curioso. Se ele olhasse para a pessoa e sorrisse, o pedido era alcançado. Se ele olhava com uma cara mais fechada, tudo dava errado na vida da pessoa”, destaca.

Cláudio também lembra de ter presenciado e visto muitas demonstrações de fé dos moradores da zona rural.

“Muitos sitiantes tinham problemas com leite. Depois que ele morreu, muitos passaram a levar o leite e deixar no túmulo dele. Passavam semanas e mais semanas e o leite nunca azedou”, relata.

No livro, outros milagres atribuídos a Marcelino também foram contados.

“Como eu trabalhava no cemitério, peguei todos os papéis que os fiéis deixavam aqui, agradecendo as bênçãos, e coloquei no livro. Essa é a quarta edição que eu faço do livro. É uma crença muito bonita, e eu acredito que todo mundo que pede algo com fé é realizado”, finaliza.

Cláudio escreveu um livro sobre a história de Antonio Marcelino, o Menino da Tábua, de Maracaí — Foto: Arquivo pessoal

Cláudio escreveu um livro sobre a história de Antonio Marcelino, o Menino da Tábua, de Maracaí — Foto: Arquivo pessoal

Da devoção popular à pesquisa acadêmica

A história e a devoção em torno do Menino da Tábua que leva milhares de pessoas a Maracaí todos os anos também despertaram a curiosidade no meio acadêmico.

A vida de Antonio Marcelino é objeto de estudo de Mariana Ferreira Vieira, cientista social e pesquisadora da USP. Ela nasceu em Assis e foi a avó, que nasceu em Cruzália e conheceu Marcelino pessoalmente, quem apresentou a história para ela ainda criança.

“Foi dentro da Universidade de São Paulo que comecei, ainda em 2011, a desenvolver meus estudos sobre o Menino da Tábua. O que me interessa é entender como uma pessoa, uma história ou até mesmo um lugar pode se tornar um ponto de referência para a devoção de tantas pessoas. Procuro entender como uma devoção que começa de forma local, entre as próprias pessoas, vai ganhando força, reunindo cada vez mais fiéis e criando novas histórias, práticas e formas de devoção”, contou.

Mariana também conta que a experiência de estudar sobre o Menino da Tábua abriu o seu olhar para algo maior.

“Quando comecei, estava interessada em compreender uma manifestação de religiosidade popular. Com o tempo, percebi que em torno dela havia muito mais: histórias de famílias, modos de trabalhar e ocupar a terra, memórias do campo, práticas religiosas, festas, músicas, fotografias, objetos, narrativas e conhecimentos transmitidos entre gerações.”

“Hoje eu entendo o Menino da Tábua também como uma porta de entrada para uma memória muito mais ampla do que só o oeste paulista”, completa.

Mariana realiza pesquisa na USP sobre a tradição que leva milhares de fiéis a Maracaí todos os anos — Foto: Arquivo pessoal

Mariana realiza pesquisa na USP sobre a tradição que leva milhares de fiéis a Maracaí todos os anos — Foto: Arquivo pessoal

Festa em Maracaí

Desde 1977, a Festa do Menino da Tábua integra o calendário oficial de eventos do município e se consolidou como uma das maiores romarias do interior paulista.

Além das celebrações religiosas, a programação conta com apresentações culturais, feira de artesanato, praça de alimentação e atrações que valorizam a cultura local, impulsionando o turismo, o comércio e a economia de Maracaí.

Neste ano, mais de 20 mil pessoas devem passar pelo túmulo do menino em busca de bênçãos e para agradecer por milagres atribuídos a ele, já alcançados.

Fonte: g1

Túmulo de Antonio Marcelino atrai milhares de fiéis durante a festa dedicada ao Menino da Tábua em Maracaí — Foto: TV TEM/ Reprodução

Túmulo de Antonio Marcelino atrai milhares de fiéis durante a festa dedicada ao Menino da Tábua em Maracaí — Foto: TV TEM/ Reprodução

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