A Política do mau exemplo

“…integrantes de grande parte das câmaras municipais do interior do Brasil não eram sequer remunerados…”

A democracia foi criada, mantida e incentivada no sentido de propiciar o aprimoramento da política, da justiça e da administração pública, partindo do princípio que o revezamento no poder garanta a seleção natural feita pelo voto do eleitor que aprova ou desaprova o desempenho dos mandatários.

Entretanto, a lógica do julgamento permanente daqueles que ocupam cargos nas principais instituições públicas se perde quando o eleitor deixa de defender o interesse comum em favor do benefício próprio, perde a capacidade de avaliar e se torna coadjuvante no sistema político.

Sem cultivar o idealismo, o desejo de apenas colaborar com a comunidade em que vivem ou de oferecer legados permanentes às futuras gerações, os detentores de cargos também passam a defender interesses pessoais e de grupos e se tornam cúmplices dos desvios de finalidade da democracia participativa.

Exemplos claros da deterioração da atividade política já são perceptíveis nas pequenas cidades, cujos titulares das instituições quase sempre replicam as medidas populistas e enganosas que confundem a população e adotam projetos e providências que atendem apenas aos interesses de seus membros.

Até passado recente, integrantes de grande parte das câmaras municipais do interior do Brasil não eram sequer remunerados, pois apenas emprestavam parte do tempo disponível e do conhecimento que detinham para colaborar com a comunidade.

O orgulho de representar uma parcela da população ao ser escolhido pelo voto direito tinha muito mais valor do que qualquer possível benefício oferecido pelo erário, em condição que garantia muito mais autonomia e independência ao eleito para propor leis que pudessem desagradar a interesses de pessoas ou de grupos e para fiscalizar com o devido rigor o trabalho do Executivo.

A quase obrigatória condição de ricos alcançada pela grande maioria dos deputados e senadores e o elevado número de benefícios criados em favores próprios se transformaram em péssima escola para os pequenos legislativos municipais que, em vez de oferecer bons exemplos de baixo para cima, preferem copiar os maus exemplos de cima para baixo.

Câmaras municipais suntuosas, elevado número de funcionários e assessores muito bem remunerados, subsídios elevados, veículos de luxo e motoristas à disposição e muitas vantagens pessoais e penduricalhos criados com frequência em seus favores são exemplos da política do mau exemplo.

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Cláudio Pissolito

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