Segundo a mãe, uma representante da escola municipal que o filho frequenta falou sobre o “sistema falho” do ensino público em reunião que tiveram para discutir o caso do menino. Diretoria Regional de Ensino nega falta de docentes.
A mãe de um aluno da Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) Lucy Garcia Salgado, em Moema, na Zona Sul de São Paulo, registrou um boletim de ocorrência após o filho de 4 anos chegar em casa com uma marca de esganadura no pescoço, na quinta-feira (25). Ainda não se sabe as causas do ferimento.
Segundo Mariana Marques, mãe do menino, Bernardo retornou da EMEI por volta das 16h, quando foi deixado em casa pela van escolar, com irmão gêmeo. Pouco depois, ele reclamou de dor dizendo “mamãe, meu pescoço”. Foi então que Mariana percebeu a vermelhidão na área e se desesperou.
Ao procurar a escola para esclarecer a situação, a responsável se deparou com um cenário até então desconhecido por ela e pelos pais da demais crianças da turma de seu filho: falta de professores, falta de substitutos, profissionais fazendo jornada de trabalho dupla e até “bicos” na instituição. A Diretoria Regional de Ensino (DRE) do Ipiranga nega a falta de docentes (veja mais abaixo).
“A escola realmente está ao deus-dará”, descreveu Mariana.
Nesta quarta-feira (31), uma criança foi encontrada morta na quadra de futebol da creche do CEU Meninos, na Zona Sul de São Paulo. Pais de alunos do espaço suspeitam que a criança tenha se enforcado com a rede do gol do campo de futebol do local.
A mãe de Bernardo relatou que não conseguiu entrar em contato com a instituição de ensino na própria quinta, então compareceu ao local no dia seguinte, sexta-feira (26), acompanhada do pai de seu filho, quando foi atendida por uma funcionária que se identificou como integrante do grupo gestor da escola.
De acordo com Mariana, a representante da EMEI Lucy Garcia Salgado iniciou a conversa expondo os problemas que a turma de Bernardo – uma das quatro que a escola possui – estaria enfrentando desde o início do ano, sendo o principal deles a falta de envio de profissionais para substituírem professores que estão afastados por motivos de saúde, função que cabe à Secretaria Municipal da Educação.
Em alguns casos, como de torções de pé durante o trabalho, por exemplo, professores estariam passando mais tempo afastados devido à espera pela realização de perícia médica do que por recomendação dos profissionais de saúde. Contudo, segundo a representante da EMEI, a secretaria só envia substitutos para licenças de períodos maiores do que 30 dias.
Uma das formas que a escola encontrou de tentar contornar a questão, contou Mariana, é por meio de uma “parceria” com outra EMEI da região, localizada a menos de 1,5 km de onde Bernardo está matriculado. Às segundas, quartas e sextas-feiras, uma professora da instituição parceira estaria “fazendo um extra”, ficando responsável pela turma do menino.
Outro forma adotada é ver com os professores da própria EMEI Lucy Garcia Salgado quais estão disponíveis e dispostos a trabalhar no contraturno e, assim, dobrar suas jornadas de trabalho. Caso não haja ninguém para ficar com a turma, os quase 30 alunos (de 4 a 6 anos) são distribuídos entre as demais salas, de forma que cada uma fique com, em média, 40 crianças.
Mariana contou que, durante a reunião, a representante da escola admitiu que os alunos de uma turma sem professor fixo são prejudicados pela situação, uma vez que a situação dificulta a criação de laços entre essas crianças e os profissionais. Além disso, a gestora culpou o “sistema falho” do ensino público e a “falta de governabilidade” das escolas municipais sobre determinadas questões, como a da substituição de docentes.
Questionada sobre o esquema de alocação de professores substitutos, a DRE do Ipiranga, responsável pela área onde está a EMEI Lucy Garcia Salgado, afirmou que não há falta de funcionários, que as aulas não foram prejudicadas e que professores substitutos foram convocados e estão em sala de aula.
Marca no pescoço
Durante a reunião que tiveram na escola, os pais de Bernardo foram informados que, após uma apuração interna com as professoras que atuaram na sala do menino naquela quinta-feira, quando a marca de esganadura apareceu, o grupo gestor ficou sabendo que a turma havia realizado uma atividade com barbantes na manhã do dia 25 e que a principal suspeita da representante da escola era de que esse teria sido o objeto utilizado para deixar a marca.
A mãe contou que, ao chegar em casa, abriu o navegador de internet, pesquisou uma foto de barbante para mostrar ao filho e perguntou se era aquilo que o havia machucado. O menino apenas respondeu “é, mamãe, a corda branca”. Em outra conversa com Mariana, na qual ela o questionou sobre quem teria feito aquilo, ele chegou a mencionar o nome de dois colegas de sala, mas a representante da escola disse à mãe que, segundo uma professora, uma das crianças mencionadas não foi à escola naquela quinta.
“Não tem muito o que fazer em relação aos amiguinhos, sabe?! São crianças também. A questão é: onde estava o responsável [pela turma]?”, disse Mariana.
Para a mãe de Bernardo, o que mais a preocupa é o fato de não ter respostas concretas sobre o que aconteceu. “Como que ninguém viu, ninguém sabe falar a hora, como ou aonde foi?”
Segundo Mariana, o menino chorou muito nos primeiros dias na hora de tomar banho e passar pomada, mas o machucado já começou a cicatrizar.
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“O que eu quero agora é a transferência imediata para outra escola que tenha estrutura e que eu consiga trabalhar em paz, sabendo que meu filho vai voltar vivo para casa. É essa a certeza que eu quero; que ele vai se divertir, vai aprender e vai voltar vivo para casa. Eu quero essa paz”, disse a mãe.
Em nota, a Secretaria Municipal da Educação informou que a Diretoria Regional de Educação do Ipiranga determinou uma apuração imediata do caso e que está à disposição de Mariana para quaisquer esclarecimentos. A pasta disse ainda que “uma reunião será convocada para escuta e esclarecimento para os pais dos estudantes”.
A Secretaria de Segurança Pública confirmou o registro de um Boletim de Ocorrência eletrônico no sábado (27) e informou que o caso foi encaminhado ao 27º Distrito Policial – Campo Belo, que investigará o ocorrido.
Fonte: G1













