A perigosa orfandade sul-americana

Cláudio Pissolito*

A invasão norte-americana à pobre, corrompida e dividida Venezuela revela mais do que um crime previsto em todas as convenções internacionais, cometido pela manutenção do imperialismo econômico das armas, agora apontadas para o Sul do continente sempre esquecido e, esporadicamente manipulado, quando necessário.

Os movimentos expansionistas e de domínio das superpotências econômicas e bélicas, somados à egolatria do líder ocidental instável e inconsequente, que parece finalmente ter encontrado um rumo para sua política expansionista, de fazer sucumbir os mais fracos, mostra que até agora vivemos em paz relativa, mas sem unidade, coordenação e muito menos lideranças com capacidade de entendimento da importância da geopolítica unificada para a defesa coletiva.

Da mesma forma que a Venezuela se mantém dividida pela desigualdade histórica, os demais países sul-americanos também enfrentam a dicotomia da falsa unidade marcada pelo preconceito econômico e social que segrega grandes contingentes populacionais na pobreza e na miséria, a despeito dos ricos e bilionários que se locupletam desta política perversa mantida desde os tempos das colônias portuguesa e espanholas.

Às defecções históricas dos países sul-americanos, soma-se a polarização político-ideológica de posicionamentos entre esquerda e direita que está dividindo e corroendo as sociedades que deveriam estar integradas, ao menos contra possíveis inimigos externos.

Ao contrário, as correntes ideológicas mais radicais se posicionam na política externa de acordo com os interesses imediatos da política doméstica, mesmo que a adesão ao imperialismo represente a entrega mansa e pacífica da soberania nacional, o maior bem de uma nação que sustente o mínimo de dignidade.

O adesismo, ou o entreguismo, não se resume ao povo mal informado, enganado pelas notícias falsas ou envenenado pelas ameaças apregoadas, mas também aos líderes políticos que, sem capacidade de atender aos reclamos e necessidades de seus povos, se sustentam na utopia que separa o mundo entre o bem e o mal.  

No caso brasileiro, a esquerda representada pelo presidente Lula aparece atordoada com os revezes e êxitos que se alternam a cada movimento inesperado do líder imprevisível que, depois de perceber a dificuldade de dialogar e influenciar as potências bélicas, resolveu olhar para a, literal e geograficamente dizendo, parte baixa do continente americano, onde encontra campo fértil para exercer seu poder de hegemonia até então manifestado apenas em ameaças.

Por outra lado, a direita recém derrotada nas urnas, por obra e graça de Jair Bolsonaro, representante de segunda linhagem, se mostra subserviente aos arroubos de colonialismo da última esperança representada por Donald Trump, sepultando de vez qualquer possibilidade de defesa enfática da soberania nacional brasileira.

A incapacidade e a indecisão da esquerda que, ao mesmo tempo que deseja empunhar a bandeira do verdadeiro patriotismo nacional, se esbarra no prudente receio da instabilidade e da imprevisibilidade do agressor que parece cumprir suas ameaças contra os mais anêmicos, revela a fragilidade do poder.

Enquanto isso, a nossa recém revelada direita radical, de oposição destrutiva que se aproveita de qualquer oportunidade, incluindo agressões ao próprio país para desqualificar o mandatário adversário, se comporta como o narciso às avessas, que cospe na própria imagem.

Sem liderança consolidada, sem referência política que possa aglutinar esforços conjuntos e suprapartidários ou supraideológicos, com o receio e a cautela da esquerda no poder, que teme pelo impacto nas eleições do próximo ano, e com o adesismo inconsequente e descarado da direita oportunista, que aposta em todo e qualquer caos, fica o Brasil na encruzilhada da dúvida de como agir diante do perigoso imperialismo armado que ameaça todos os países sul-americanos absolutamente órfãos de lideranças capazes de representa-los com as necessárias autoridade e dignidade.

*Cláudio Pissolito é jornalista, historiador, diretor do Jornal da Comarca e titular do Blog do Cláudio

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