Abusador caseiro
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“…aquele que abusa não é monstro e muito menos doente, como também não se trata de uma aberração…”  

A repercussão do caso da menina abusada há vários anos e que conseguiu abortar uma gravidez oriunda da violência, serve para abrir a discussão sobre esse tema controverso, camuflado e as vezes até ignorado pelas famílias e autoridades. Os casos são recorrentes, continuados e fazem vítimas todos os dias, cuja maioria dos algozes são familiares ou amigos próximos. Como exemplo, consta que Ourinhos registra mais de 10 casos de aborto de meninas até 14 anos, enquanto vários internos da Casa Abrigo de Ibirarema sofreram estupros de dirigentes da entidade, ambos pastores evangélicos.

Muitos taxam os abusadores de monstros, como aberrações ou perversos anômalos, conferindo a esse tipo de indivíduo uma condição não humana, muito aquém dos padrões sociais considerados normais, quando na verdade a grande maioria é de pessoas comuns, muito próximas e as vezes até carinhosas e protetoras de suas vítimas. Os casos que se repetem, a grande maioria mantida em segredo por toda a vida, causam profundas feridas físicas, morais e psicológicas nas pessoas atacadas, transformando-se numa doença indecifrável e incurável pela vergonha de se expor ou de desafiar a autoridade ameaçadora do abusador.

Reféns do medo, de ameaças, do julgamento social e público e da manutenção do equilíbrio da própria família, as vítimas permanecem em silêncio e, comumente, cedem às vontades e às perversidades dos abusadores. Mantendo o segredo, passam a falsa impressão de que são coniventes ou até satisfeitos com a situação, quando na verdade são subjugadas pela forma mais mesquinha, intimidatória e covarde que um ser humano é capaz de praticar. E, assim, a situação se perpetua e, invariavelmente, acaba compartilhada por outros abusadores como forma de avalizar o ato indigno e perverso.

Portanto, aquele que abusa não é monstro e muito menos doente, como também não se trata de uma aberração da natureza. O perfil, quase sempre, é de uma pessoa de má índole, egocêntrica, violenta e calculista, mas sempre camuflada na imagem de um pai amoroso, carinhoso e ciumento, de um tio zeloso e preocupado com o bem estar da família ou de um vizinho ou amigo prestativo e querido no seio familiar. E os abusos acontecem nas casas das vítimas ou dos algozes, nas escolas, nas creches, nos escritórios ou nas fábricas, nas instituições públicas e privadas e até, com bastante recorrência, nos bastidores de templos religiosos.

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