As gêmeas roubadas após nascimento que se reencontraram graças a vídeo no TikTok

Amy Khvitia e Ano Sartania só foram se conhecer aos 19 anos — Foto: BBC

Milhares de pessoas na Geórgia descobriram que foram roubadas dos pais e vendidas.

Amy e Ano são gêmeas idênticas, mas logo depois do nascimento foram separadas da sua mãe e vendidas para famílias diferentes.

Anos depois, elas se descobriram por acaso graças a um programa de talentos na TV e a um vídeo do TikTok.

Ao investigarem seu passado, elas perceberam que estavam entre os milhares de bebês da Geórgia que foram roubados de hospitais e vendidos, alguns ainda em 2005. Agora elas estão em busca de respostas.

Amy caminha de um lado para outro em um quarto de hotel em Leipzig, na Alemanha. “Estou com medo, muito medo”, diz ela. “Não dormi a semana toda. Esta é minha chance de finalmente obter algumas respostas sobre o que aconteceu conosco.”

Sua irmã gêmea, Ano, está sentada em uma poltrona assistindo a vídeos do TikTok em seu telefone. “Esta é a mulher que poderia ter nos vendido”, diz ela.

Ano admite que também está nervosa, mas apenas porque não sabe como reagirá e se conseguirá controlar sua raiva.

É o fim de uma longa jornada. Elas viajaram da Geórgia para a Alemanha, na esperança de encontrar a peça que faltava no quebra-cabeça. Elas finalmente vão conhecer sua mãe biológica.

Nos últimos dois anos, elas vêm reconstruindo o que aconteceu. À medida que desvendavam a verdade, elas perceberam que havia dezenas de milhares de outras pessoas na Geórgia que também tinham sido retiradas de hospitais quando eram bebês e vendidas ao longo das décadas.

Apesar de tentativas oficiais de se investigar o que aconteceu, ninguém foi responsabilizado até hoje.

A história de como Amy e Ano se descobriram começa quando elas tinham 12 anos.

Amy Khvitia estava na casa de sua madrinha, perto do Mar Negro, assistindo ao seu programa de TV favorito, Georgia’s Got Talent. Havia uma garota dançando que se parecia exatamente com ela.

Na verdade, era idêntica.

“Todo mundo telefonava para minha mãe e perguntava: ‘Por que Amy está dançando com outro nome?'”, diz ela.

Amy mencionou isso para sua família, mas eles ignoraram. “Todo mundo tem um sósia”, disse sua mãe.

Sete anos depois, em novembro de 2021, Amy postou no TikTok um vídeo dela mesma com cabelo azul fazendo um piercing na sobrancelha.

A 320 km de distância, em Tbilisi, outra jovem de 19 anos, Ano Sartania, recebeu o vídeo de um amigo. Ela achou “legal ela se parecer comigo”.

Ano tentou rastrear na internet a garota com piercing na sobrancelha, mas não conseguiu encontrá-la. Ela compartilhou o vídeo em um grupo de WhatsApp da universidade para ver se alguém poderia ajudar. Alguém que conhecia Amy viu a mensagem e as colocou em contato pelo Facebook.

Amy soube imediatamente que Ano era a garota que ela tinha visto anos atrás no Georgia’s Got Talent.

“Estou procurando por você há tanto tempo!”, ela mandou uma mensagem. “Eu também”, respondeu Ano.

Nos dias seguintes, elas descobriram que tinham muito em comum, mas nem tudo fazia sentido.

Ambas nasceram na maternidade de Kirtskhi – que já não existe – no oeste da Geórgia, mas, de acordo com as suas certidões de nascimento, os seus aniversários ocorreram com algumas semanas de intervalo.

Elas não poderiam ser irmãs, muito menos gêmeas. Mas havia muitas semelhanças. Gostavam da mesma música, adoravam dançar e até tinham o mesmo penteado. Elas descobriram que tinham a mesma doença genética, um distúrbio ósseo chamado displasia.

Parecia que elas estavam desvendando um mistério juntas. “Cada vez que eu aprendia algo novo sobre Ano, as coisas ficavam mais estranhas”, diz Amy.

Elas marcaram um encontro e, uma semana depois, quando Amy se aproximava do topo da escada rolante da estação de metrô Rustaveli, em Tbilisi, ela e Ano se viram pessoalmente pela primeira vez.

“Foi como olhar no espelho, exatamente o mesmo rosto, exatamente a mesma voz. Eu sou ela e ela sou eu”, diz Amy. Ela soube então que eram gêmeas.

“Não gosto de abraços, mas abracei ela”, diz Ano.

Elas decidiram confrontar as suas famílias e pela primeira vez descobriram a verdade. Elas haviam sido adotadas, separadamente, com algumas semanas de intervalo em 2002.

Amy ficou chateada e sentiu que toda a sua vida tinha sido uma mentira. Vestida de preto da cabeça aos pés, ela parece uma pessoa durona, mas ao contar a sua história ela não consegue conter as lágrimas. “É uma história maluca”, diz ela. “Mas é verdade.”

Ano estava “zangada e chateada com a minha família, mas eu só queria que as conversas difíceis acabassem para que todos pudéssemos seguir adiante”.

As gêmeas descobriram que alguns detalhes em suas certidões de nascimento oficiais, incluindo a data em que nasceram, estavam errados.

Incapaz de ter filhos, a mãe de Amy diz que uma amiga lhe contou que havia um bebê indesejado no hospital local. Ela precisaria pagar os médicos, mas poderia levá-la para casa e criá-la como se fosse sua.

A mãe de Ano contou a mesma história.

Nenhuma das famílias adotivas sabia que as meninas eram gêmeas e, apesar de pagarem muito dinheiro para adotar as filhas, dizem que não perceberam que isso era ilegal. A Geórgia estava enfrentando um período de turbulência e, como o pessoal do hospital estava envolvido na adoção, eles consideraram que tudo foi feito dentro da lei.

Nenhuma das famílias revelou quanto dinheiro foi pago.

As gêmeas queriam saber se seus pais biológicos as teriam vendido meramente por dinheiro.

Amy queria procurar a mãe biológica para descobrir a verdade, mas Ano hesitava. “Por que você quer conhecer a pessoa que pode ter nos traído?”, ela perguntava.

Amy encontrou um grupo no Facebook dedicado a reunir famílias georgianas com crianças suspeitas de terem sido adotadas ilegalmente e compartilhou a sua história.

Uma jovem na Alemanha respondeu, dizendo que a sua mãe tinha dado à luz gêmeas no Hospital Maternidade Kirtskhi em 2002 e que, apesar de lhe terem dito que os bebês tinham morrido, ela duvidava dessa versão.

Testes de DNA revelaram que a menina do grupo do Facebook era irmã delas e morava com a mãe biológica, Aza, na Alemanha.

Amy estava desesperada para conhecer Aza, mas Ano estava mais cética.

“Essa é a pessoa que poderia ter te vendido, ela não vai te contar a verdade”, alertou. Mesmo assim ela concordou em ir para a Alemanha com Amy para apoiá-la.

O grupo do Facebook que as gêmeas usaram, Vedzeb, significa “Estou procurando” em georgiano.

Há inúmeras postagens de mães que dizem que a equipe do hospital lhes disse que seus bebês haviam morrido, mas depois descobriram que as mortes não foram registradas e que seus filhos ainda poderiam estar vivos.

Outras postagens são de crianças como Amy e Ano, em busca de seus pais biológicos.

O grupo tem mais de 230 mil membros e, junto com sites de DNA, ele expôs um capítulo obscuro na história da Geórgia.

Vedzeb foi criado pela jornalista Tamuna Museridze em 2021, depois que ela descobriu que era adotada. Ela encontrou sua certidão de nascimento com detalhes incorretos quando estava limpando a casa de sua falecida mãe.

Ela iniciou o grupo para procurar a sua própria família, mas o grupo acabou por expor um escândalo de tráfico de bebês que afeta dezenas de milhares de pessoas e que se estende por décadas.

Ela ajudou a reunir centenas de famílias, mas ainda não localizou a sua própria.

Tamuna descobriu um mercado clandestino de adoção que se estendia por toda a Geórgia e durou do início da década de 1950 até 2005.

Ela acredita que foi comandado por criminosos organizados e envolveu pessoas de todos os setores da sociedade, desde motoristas de táxi até pessoas de alto escalão do governo.

“A escala é inimaginável, foram roubados até 100 mil bebês. Foi sistêmico”, diz ela.

Tamuna explica que calculou esse número contando o número de pessoas que a contataram e combinando isso com o período de tempo e a propagação nacional dos casos.

Com a falta de acesso aos documentos – alguns foram perdidos e outros não estão sendo divulgados – é impossível verificar o número exato.

Tamuna diz que muitos pais lhe contaram que, quando pediram para ver os corpos dos seus bebês mortos, foram informados de que eles já haviam sido enterrados no terreno do hospital.

Desde então, ela descobriu que nunca existiram cemitérios em hospitais georgianos. Em outros casos, eram mostrados aos pais bebês mortos que haviam sido congelados no necrotério.

Tamuna diz que era caro comprar uma criança: o equivalente a um ano de um salário médio na Geórgia.

Ela descobriu que algumas crianças acabaram com famílias estrangeiras nos EUA, Canadá, Chipre, Rússia e Ucrânia.

Em 2005, a Geórgia alterou a sua legislação de adoção e em 2006 reforçou as leis antitráfico, dificultando as adoções ilegais.

Outra pessoa em busca de respostas é Irina Otarashvili. Ela deu à luz gêmeos em uma maternidade em Kvareli, no sopé das montanhas do Cáucaso, na Geórgia, em 1978.

Os médicos disseram que os dois meninos eram saudáveis, mas, por razões que nunca foram explicadas, foram mantidos longe dela.

Três dias depois de nascerem, ela foi informada de que ambos haviam morrido repentinamente. Um médico disse que eles tinham problemas respiratórios.

Irina e seu marido não conseguiam entender isso, mas especialmente na época soviética “você não questionava a autoridade”, diz ela. Ela acreditou em tudo que eles disseram.

As autoridades pediram que o casal trouxesse uma mala para levar os restos mortais dos bebês e enterrá-los no cemitério ou no quintal, como era comum para os bebês da época. O médico disse para nunca abrirem a maleta, pois seria muito perturbador ver os corpos.

Irina fez o que lhe foi dito, mas 44 anos depois sua filha Nino encontrou o grupo de Tamuna no Facebook e começou a suspeitar.

“E se nossos irmãos não tivessem morrido de verdade?”, ela imaginou. Nino e sua irmã Nana decidiram desenterrar a mala.

“Meu coração estava acelerado”, diz ela. “Quando abrimos, não havia ossos, apenas gravetos. Não sabíamos se sorríamos ou se chorávamos.”

Ela diz que a polícia local confirmou que o conteúdo era composto por galhos de uma videira e não havia vestígios de restos humanos.

Ela agora acredita que seus irmãos há muito perdidos ainda podem estar vivos.

No hotel em Leipzig, Amy e Ano se preparam para conhecer sua mãe biológica. Ano diz que mudou de ideia e que quer desistir. Mas é um vacilo momentâneo e, respirando fundo, ela decide seguir em frente.

A mãe biológica, Aza, espera nervosa em outra sala.

Amy abre a porta hesitante e Ano a segue, quase empurrando a irmã para dentro do quarto.

Aza avança e as abraça com força, uma gêmea de cada lado. Os minutos passam. Abraçadas, ninguém fala nada.

Lágrimas escorrem pelo rosto de Amy, mas Ano permanece inabalável. Ela até parece um pouco irritada.

As três se sentam para conversar.

Mais tarde, as gêmeas contam que a mãe explicou que ficou doente após o parto e entrou em coma. Quando ela acordou, a equipe do hospital disse que logo após o nascimento dos bebês, eles haviam morrido.

Ela disse que conhecer Amy e Ano deu um novo significado à sua vida.

Embora não sejam próximas, elas ainda mantêm contato.

Em 2022, o governo georgiano lançou uma investigação sobre o tráfico de crianças. O governo disse à BBC que conversou com mais de 40 pessoas, mas os casos eram “muito antigos e registros históricos se perderam”.

A jornalista Tamuna Museridze diz que compartilhou informações, mas o governo não disse quando irá divulgar o seu relatório.

O governo fez pelo menos quatro tentativas para descobrir o que aconteceu. Isso inclui uma investigação em 2003 sobre o tráfico internacional de crianças que levou a uma série de prisões, mas pouca informação foi tornada pública. E em 2015, após outra investigação, a imprensa georgiana informou que o diretor-geral da maternidade Rustavi, Aleksandre Baravkovi, havia sido preso. Mas ele foi inocentado e voltou ao trabalho.

A BBC contatou o Ministério do Interior da Geórgia para obter mais informações sobre casos individuais, mas fomos informados de que detalhes específicos não seriam divulgados devido à proteção de dados.

Tamuna uniu agora forças com a advogada de direitos humanos Lia Mukhashavria para levar os casos de um grupo de vítimas aos tribunais georgianos. Eles querem ter acesso aos seus documentos de nascimento — algo que atualmente não é possível pela legislação georgiana.

Eles esperam que isso ajude a trazer um pouco de paz nas suas vidas.

“Sempre senti que faltava alguma coisa ou alguém na minha vida”, diz Ano. “Eu costumava sonhar com uma garotinha vestida de preto que me seguia e me perguntava como foi meu dia.”

Esse sentimento desapareceu quando ela encontrou Amy.

Fonte: G1

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