Composteira d’alma
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            *José Renato Nalini

            As pessoas conscientes e preocupadas com o tratamento que os humanos têm dispensado à natureza, cuidam de fazer sua parte para reverter ou desacelerar a catástrofe final. Com fundamento no lema inicial da ecologia – “pensar globalmente, agir localmente” – nada impede a adoção de atitudes inteligentes.

Uma delas, é manter uma composteira doméstica. Os resíduos orgânicos produzidos pela família são reciclados em casa. A minha, presente de meu manager, funciona perfeitamente. A caixa digestora recebe os resíduos gerados pelo consumo residencial como frutas, legumes, verduras, cereais, grãos e sementes, pães e bolos, cascas de ovos, borra e filtro de café, sachê de chá, cogumelos.

        O minhocário produz humus e também um composto líquido que é valioso nutriente para plantas. É uma contribuição modesta, mas eficiente, para minorar os males que ferem a natureza e abreviam a aventura humana sobre este sofrido planeta.

        O uso da composteira me fez pensar que seria interessante pudéssemos ter uma composteira também para a alma.

         Ela não precisa ser tangível, como a composteira produzida pela “Morada da Floresta”, que funciona tão bem. Nós a idealizaríamos mentalmente, para recolher todas as nossas frustrações. Decepções, tristezas, ressentimentos. O convívio não é a mais prazerosa das ocupações. Pode sê-lo, mas há sempre uma dose de fel para amargar. As incompreensões, as ingratidões, os desenganos.

         Aquela pessoa em quem se confiou, mas que se mostrou completamente outra. Enganamo-nos com ela ou ela nos enganou e até se auto-engana?

         Todo esse material pútrido é deixado ali, para que decante e desapareça em sua fealdade, produzindo um poderoso adubo, com o qual estaremos prontos para enfrentar outras batalhas.

         Não há flores que surgem no pântano, alimentadas por podridão? Assim também, se a nossa composteira d’alma for recoberta por uma cobertura de perdão, compreensão e resignação, ela também produzirá flores do recomeço, da esperança e da renovação da crença na perfectibilidade dos humanos.

Vamos tentar?

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022

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