CORAÇÃO EMPEDERNIDO

            Quantas vezes ouvi essa expressão, sem dar conta de seu significado! Só agora, quando acordo com a consciência a me acusar, usando insolentemente esta terminologia rude, é que a curiosidade me faz pensar ou ao menos melhor compreender tão solene acusação: você tem um coração empedernido. É estranho, mas o peso de muitas palavras, por si só, já nos leva à compreensão e ao arrependimento por certas atitudes impensadas, muitas dessas que praticamos no transcorrer de uma lida diária, no lufa-lufa das obrigações cotidianas. Então, no serenar do dia, eis que nossa consciência nos diz: seu coração poderia ter sido mais brando, menos intransigente, mais amoroso, menos egoísta, mais, menos… nesta ou naquela situação do dia.

            Meu coração poderia ao menos disfarçar aquele dramalhão que minha mente produzia – a famosa tempestade em copo d’água – capaz de me sentir a mais injustiçada e infeliz das criaturas, quando à minha frente o olhar de uma criança abandonada saboreava o sorvete derretido que manchou minha camisa nova. Meu coração intransigente poderia poupar-me da vergonha de não perdoar aqueles trinta centavos no troco, que me deixou encabulado diante de uma nota maior, para a qual foi forçado a desfazer-me do dinheiro miúdo. Meu coração egoísta poderia prever o embaraço na fila da eucaristia, quando quem me cedeu sorridente o lugar fora a pessoa que acabara de considerar indigna de frequentar a igreja, pelos comentários que ouvi dizer a seu respeito. Mal sabia eu da admiração que essa mesma pessoa tinha por mim…

            Ah, coração! Poderíamos sorrir mais, perdoar mais, compreender mais, tolerar mais, sonhar mais, não fosse nossa relação razão/atitude um mecanismo carente de maiores lubrificações e polimentos de gratidão, carinho, humanidade pura e simples. Não fosse nossa raça predominantemente animal, mas igualmente racional. Meio a meio ao menos, quando é esse o mínimo necessário para o equilíbrio emocional, psicológico, moral, que nos diferenciam como raça e nos colocam um grau acima dos animais que nos servem, respeitam, reverenciam ou no mínimo enfeitam e alegram nossa existência. Neles não encontraremos corações empedernidos, mas agradecidos pelo dom da vida, pela graça do existir tão somente. Pudessem os humanos compreender a preciosidade dessa gratidão! Ah, coração!

             Afinal, o que é mesmo empedernido? Há muitas definições, dentre elas enrudecido, petrificado, rijo, insensível, cruel, endurecido ou mesmo desumano. Prefere qual? Na origem etimológica da palavra salta aos olhos o caráter da rigidez, aquilo que se conseguiu empedernir, ou seja petrificar-se, transformar-se em pedra. Por analogia, refere-se a tudo aquilo que não convence, não comove, não consegue persuadir, pois demonstra insensibilidade, é inflexível. Pobre coração! “O coração empedernido acabará por ser infeliz. Quem ama o perigo nele perecerá” (Ecles. 3,27).  Ao mesmo tempo em que nos diz ser o coração insensível a causa da infelicidade de muitos, o texto sagrado ainda nos aponta seu final, a morte.

            Coração desumano! Eis a melhor das definições. Não se trata de simples músculo de importância vital, pois que mantem a vida de miríades de animais. Na raça que somos é o coração o centro da vida e dos sentimentos, da racionalidade e da espiritualidade. Não é um simples órgão que, quando morto, exala o mais putrefato odor da nossa deterioração física, mas a sede dos bons propósitos e ações que ousamos praticar em vida. Um coração para amar. É o que temos de melhor.  Mais humanidade, mais humildade é o que anseia nosso pobre coração. Este só quer exalar o perfume de uma vida santa.

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Cláudio Pissolito

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