Eleitor envergonhado

“…o radicalismo leva o eleitor à ausência de crítica e de autocrítica…”   

Em região de forte presença de eleitores que votam alinhados à ideologia política da direita, ou até mesmo da extrema direita, como mostram os números de todas as eleições desde a redemocratização do país, a recente polarização entre as duas alas que se rivalizam no cenário nacional está levando as lideranças a se manifestar publicamente sobre o tema até então tratado de forma privada. A principal sugestão, ou conselho, é para que os eleitores não votem em candidatos do PT, ou que escolham aqueles que sejam contra o atual presidente Lula, sem contudo apontar um nome como preferido ou ideal.

A manifestação pública de preferencias políticas e também de repúdio a determinados nomes ou partidos, assim como as críticas e os elogios, são dádivas da democracia que, a duras penas, está sendo exercida em sua plenitude pelo povo brasileiro desde 1989 que, depois de quase 30 anos de ditadura militar, ganhou o direito de escolher o presidente da república. Entretanto, a polarização político-ideológica criada recentemente transformou os pleitos majoritários em espécies de plebiscitos entre dois nomes antagônicos que, supostamente, representam ideologias contrárias.

O acirramento do quadro político nacional transforma as duas alas majoritárias em rivais, divide a sociedade e causa sérios danos à política e à própria democracia, uma vez que o radicalismo leva o eleitor à ausência de crítica e de autocrítica e o transforma em mero defensor de um pensamento ou em simples inimigo do outro. Sem capacidade de ponderar, analisar e, principalmente, de julgar, o cidadão se transforma em agente dominado por uma única ideologia, independente dos erros, dos defeitos, da incapacidade ou do risco do candidato apresentado pelo seu grupo como único capaz de vencer o adversário.

Diante deste quadro de acirramento social e político extremado é que surgem os aventureiros e os aproveitadores que se apresentam como lideranças capazes de romper com o sistema perverso, aniquilar o inimigo e construir o mundo colorido dos sonhos idealizado nas campanhas que iludem o eleitor. Com seguidas frustrações, os defensores da ideologia de esquerda se escondem no silêncio do anonimato e os eleitores da direita pregam a destruição do adversário com qualquer líder que surja, provando que a duas alas políticas brasileiras são formadas por grandes contingentes de eleitores que se envergonham de suas escolhas.

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Cláudio Pissolito

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