Família diz que soube que criança de 2 anos morreu com suspeita de coronavírus só após o velório
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A família da menina de 2 anos que morreu com suspeita de Covid-19 afirmou ao G1 que só soube do quadro da criança depois que o corpo foi enterrado. O velório da menina foi com caixão aberto e contou com cerca de 20 pessoas, em Sorocaba (SP).

Os parentes alegam que não foram comunicados oficialmente pela unidade hospitalar que a menina era a quinta morte suspeita por coronavírus da cidade e que ficaram expostos à contaminação.

A criança tinha histórico de problemas respiratórios e morreu no Hospital Gpaci, de Sorocaba, no dia 28 de março. Segundo a a Secretaria da Saúde, a paciente deu entrada no hospital com um quadro de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Por este motivo, foi automaticamente notificada como suspeita da Covid-19.

Segundo o Gpaci, a menina foi isolada, assim que chegou à unidade, conforme orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), mas, durante o atendimento, “houve discordância na hipótese diagnóstica em relação à suspeita de Covid”, informou o hospital.

Ainda conforme o Gpaci, o quadro clínico dela foi rediscutido internamente, inclusive com a presença de agentes da Vigilância Epidemiológica. Confira a nota completa do hospital abaixo.

Amostras de material biológico da menina foram coletadas e enviadas ao Instituto Adolfo Lutz. A prefeitura aguarda o retorno do exame.

Sintomas e internação

Uma parente, que prefere ter a identidade preservada, afirmou que a criança começou a passar mal no dia 24 de março. A mãe a levou para o pronto-atendimento da zona oeste, onde um médico teria constatado que era pneumonia.

“Falaram que era pneumonia e nos receitaram antibiótico. Ela nem ficou internada e mandaram para casa para tratar.”

A parente afirma que a criança só foi internada quatro dias depois, quando teve uma piora no quadro.

“Depois de não passar a febre, ficamos preocupados. Ela só foi internada no fim da semana. No hospital nos falaram sobre suspeita de dengue hemorrágica, mas nem passou pela nossa cabeça ser coronavírus, porque ela sempre foi uma menina debilitada. Era asmática e já tinha problemas de saúde. Quando nos comunicaram sobre a morte, não tinha nada de suspeita de Covid-19”, diz.

A parente afirma que todos os familiares foram surpreendidos quando souberam que a morte da criança estava sendo tratada como suspeita de coronavírus, já que a informação não constava no atestado de óbito e nem a mãe foi comunicada oficialmente.

“Por isso, houve velório e sepultamento normalmente com a família e amigos. Ninguém nos avisou ou alertou sobre isso”, ressalta.

Outra parente afirmou que pessoas que têm hipertensão, diabetes e problemas respiratórios estiveram no velório e estão apreensivas.

“Como em qualquer velório, a família e amigos ficaram bastante próximos ao caixão e tocaram no corpo sem restrições. Há pessoas de idade e outras mais novas que foram expostas ao risco e que possuem diabetes, hipertensão e agora estão apreensivas”, diz a parente.

Ainda de acordo com a família, nenhum parente ou amigo da criança foi comunicado oficialmente sobre a quarentena obrigatória após o velório ter sido realizado na cidade.

“Não nos falaram nada. Nem sobre a suspeita de coronavírus e nem sobre a quarentena depois do velório. Estamos de quarentena muito mesmo antes da morte dela, mas ficamos sabendo de tudo pela imprensa”, alega a parente, que prefere não se identificar.

G1 questionou a prefeitura sobre a comunicação para a família da quarentena obrigatória após o velório.

Em nota, a administração municipal informou que é o hospital quem faz as orientações, mas que a Vigilância Epidemiológica entrou em contato e ninguém atendeu ao telefonema. Segundo a prefeitura, houve uma nova tentativa nesta terça-feira (31) e o telefone encontrou-se fora de área.

Ainda de acordo com o Executivo, conforme determinação da Secretaria Estadual da Saúde, somente são solicitados exames do novo coronavírus para pacientes suspeitos internados graves ou críticos e profissionais da área de saúde que apresentem sintomas de síndrome gripal.

Confira a nota do Hospital Gpaci:

“O Hospital Gpaci é referência para internação de casos pediátricos provenientes das unidades pré-hospitalares de Sorocaba. O referido caso era uma suspeita de Covid-19, notificada no atendimento inicial na unidade pré hospitalar. No Hospital Gpaci os cuidados de isolamento foram seguidos conforme orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Informamos que houve discordância na hipótese diagnóstica em relação à suspeita de Covid. Rediscutimos o caso internamente, juntamente com a Vigilância Epidemiológica.

Re-orientamos toda equipe médica. Na ocorrência de óbitos em casos futuros suspeitos, sem confirmação diagnóstica, deverá conter no Atestado de Óbito: Suspeita de Covid-19, para que seja seguido o protocolo da OMS de não realização de velório e encaminhamento para o funeral em caixão lacrado.”

Suspeita de coronavírus em atestado

Segundo a funerária responsável pelo velório, realizado com caixão aberto, no atestado emitido pelo hospital, as causas da morte da criança constavam como pneumonia, miocardite (inflamação no músculo do coração) e sepse (inflamação generalizada).

Leandro Garcia, gerente do serviço funerário, afirmou que, para o cancelamento do velório e o uso de caixão lacrado, a Covid-19 deve estar explicitada no atestado de óbito como causa confirmada ou suspeita.

“Nesse caso, a família pôde realizar o velório encurtado, mas com total acesso ao corpo, visto que não havia impedimento”, explica.

Pelo decreto municipal nº 25.655, cabe aos hospitais comunicar no atestado de óbito sempre que houver suspeita de Covid-19. Se isso acontecer, o velório é vetado e o corpo é embalado em plástico e sepultado imediatamente em caixão lacrado.

Em nota, a Prefeitura de Sorocaba informou que todos os casos de Síndrome Aguda Respiratória Grave, como o da menina, são automaticamente computados como suspeita da Covid-19, informação que deve constar no atestado de óbito.

Se essa informação não constar, caberá à funerária seguir as regras do decreto: número de pessoas presentes ao velório fica limitado a 10 simultaneamente; duração de duas horas, entre 7h e 16h; e obrigação dos responsáveis em providenciar avisos recomendando que maiores de 60 anos, grávidas, crianças menores de 12 anos e portadores de doenças preexistentes não ingressem no local.

Fonte: G1

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