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Iniciando um importante estudo científico-teológico da nossa rica cultura caipira, vamos começar a abordar as Obras de Misericórdia que, para quem não sabe, são quatorze, divididas em duas categorias de sete: as corporais e as espirituais.

Para quem acredita, e na roça acreditamos muito, as boas obras servirão para julgar o indivíduo no dia do seu juízo, por isso não é bom descuidar de qualquer uma delas.

Como serviço de utilidade pública religioso, com vistas ao futuro no além, vamos orientar nossos leitores e aprofundar o estudo de cada obra para que todas sejam entendidas e cumpridas rigorosamente.

Iniciamos a série com as obras corporais abordando o tema “visita aos enfermos”, que é de grande relevância nas sociedades caipiras, que tem a doença como meio de aproximação do próximo e do distante, do amigo e do inimigo, do parente e do agregado.

Além de um ato de bondade e de virtuosismo, a visita aos enfermos é uma forma de entretenimento, lazer e turismo nas pequenas cidades.

Quando se tem alguém doente na família, de preferência internado em hospital, os parentes próximos, os de longe, os muitos amigos, todos os vizinhos e até os agregados chegam em excursões que causam calafrio na enfermeira de plantão.

Os visitantes chegam em bandos animados e fazem confusão na portaria para entrar de uma só vez e em qualquer horário. Fazem algazarra nos corredores, entram em quarto errado sem bater na porta, contam piadas sem graça e dão palpites no tratamento médico e no trabalho das enfermeiras. Sem falar daqueles que vão ao hospital só para comer a sopinha do doente.

Outro transtorno que causam, além das botinas sujas que emporcalham os corredores, são as comidas que levam aos pacientes. O sujeito com diabetes e colesterol elevado, vítima de derrame e infarto, é presenteado com uma marmita pesada, carregada de virado de feijão com torresmo e enfeitada com ovo frito, ideal para dar sustança.

Também levam pão com mortadela, hambúrguer e frituras e ainda dividem tudo com o paciente do leito vizinho. O quarto se transforma em restaurante e as migalhas de pão e os grãos de arroz se espalham pelos lençóis.

As comadres falam mal dos médicos, criticam as enfermeiras, levam bules de chás caseiros e reclamam da cama do hospital, que é uma droga. Dizem que a comida é muito fraca, que o doente está com desejo de salgadinhos e ficam até tarde perturbando o sossego do paciente vizinho.

Os que visitam os parentes internados em outras cidades usam veículos próprios, fazem lotação, excursão e, de preferência, querem a condução da Prefeitura, com direito a ambulância nova com o motorista preferido. As vezes ocupam lugar de pacientes nos ônibus e nos melhores lugares da condução, mas não perdem a chance de viajar de graça, fazer umas compras e conhecer o shopping center e o mercadão.

Quase todos levam lanches para viagem, comem pastéis gordurosos na cantina e dividem as sobras com o paciente em jejum. Sem esquecer aqueles abelhudos que fazem visita pelo lado de fora, que conversam com o doente pela janela e passam até sorvetes para quem está com pneumonia.

Enfim, esse ato de benemerência, considerado como uma Obra de Misericórdia é martírio para o doente, transtorno para o hospital e lazer para os visitantes que encontram parentes e amigos só no dia da visita, mesmo que seja na fila da UIT.

Como tudo se transforma em festa, não faltam os políticos que aproveitam para agradar os enfermos, os parentes e os amigos, pois emprestam carros, oferecem passagens e, quando se aproxima a eleição, chegam a forçar uma alta médica para que o doente possa votar.

 

 

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