Prontuários médicos de três pacientes que estavam internados no hospital de campanha de Santo André, no ABC paulista, e que morreram por falta de oxigênio no começo de junho, mostram que eles sofreram durante algum tempo sem ar.
Integrantes da equipe médica relataram ainda ter acionado a manutenção para corrigir o problema, sem êxito.
Uma das vítimas foi o corretor de imóveis Clodoaldo Santos Fonseca, de 41 anos, que estava intubado na AME de Santo André. Uma falha técnica interrompeu o fornecimento de oxigênio para os pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Ele era casado com Stéphanie há cinco anos e tiveram um filho, hoje com três anos. Mas, no dia em que o irmão dele e a mulher foram chamados ao hospital, ninguém informou à família por que ele tinha tido uma parada cardíaca.
“Cheguei lá, tinha dois médicos na sala, foram bem breves, só falaram: ‘Ele faleceu, veio a óbito no meio da madrugada’. Sofreu uma parada respiratória e isso. Minha pressão subiu, já comecei a passar mal, então não consegui questionar nada”, diz a esposa.
Segundo ela, não lhe foi falado nada sobre o motivo da morte.
Mas o motivo aparece no prontuário do paciente, assinado pelo médico de plantão: “Paciente evolui a parada cardiorrespiratória após ausência de oxigênio”. O óbito foi atestado às 6h25.
Uma pessoa que trabalha na equipe médica em que ocorreram as mortes diz que, quando o alarme de falta de oxigênio foi acionado, percebido o problema, um rapaz da manutenção falou: “Cara, não tem o que fazer aqui não”.
“Quando a gente pediu apoio da manutenção, a manutenção falou que não sabia o que fazer. Faltou oxigênio do nada, e a gente não teve suporte de oxigênio reserva ou de suporte pra resolver o problema também”, diz o integrante da equipe.
Depois que a equipe de enfermagem chamou a manutenção, eles ainda conseguiram colocar dois cilindros de oxigênio para os pacientes, mas que não duraram nem meia hora.
Outra paciente, Wanessa, de 41 anos, também morreu naquele dia por falta de oxigênio. No documento que relata a morte dela, está escrito que “foi comunicado que paciente entra em sofrimento respiratório às 6hs, paciente evolui em grande sofrimento, tentamos manter ventilação com máscara, sem sucesso e às 6:25 constatado óbito”.
A família dela recebeu a informação com dor.
“A gente não digere essa informação. É muito difícil, cada dia que passa a gente tem uma informação mais difícil para poder assimilar, pra poder digerir, que deixa a gente mais inconformado… Então a gente tá muito frustrado com toda essa situação e muito triste com tudo isso, né? E com sentimento de justiça, de saber o que aconteceu, de querer casar as informações, de ter uma resposta do hospital, dos órgãos públicos, é isso que a gente tá buscando”, diz a irmã da vítima.
Um mês depois das mortes, as famílias ainda não sabem o que levou à falha técnica nem por que o sistema de segurança, que deveria acionar outra fonte de oxigênio, não funcionou.
A Fundação ABC – que administra o AME Santo André – contratou uma perícia que deveria ter ficado pronta até 8 de julho. A fundação disse que as atividades do hospital de campanha foram paralisadas em 4 de junho.
Fonte: G1













