Vozes que romperam o silêncio: a força da mulher brasileira

Por Mariana Mascari Stanchevicz *

Os últimos meses me fazem refletir sobre o que há de motivos para celebrar o Dia Internacional da Mulher. A globalização trouxe à luz a violência que cada “não” dito por uma mulher gera.  Não podemos nos esmorecer, o caminho tem se mostrado árduo, mas se hoje temos a liberdade de ocupar qualquer espaço, foi porque mulheres como Chiquinha Gonzaga, pioneiramente, disseram: “ô abre alas, que eu quero passar!”.

Vou me apegar a honrar o rastro de coragem que atravessa gerações. Em especial, as mulheres brasileiras. A trajetória feminina em solo brasileiro é feita de barreiras rompidas. Cada espaço que ocupamos hoje foi, no passado, um território de disputa. Como a sufragista Bertha Lutz, uma cientista e bióloga que não ficou só no laboratório. Ela construiu todo um movimento para garantir o nosso direito ao voto, que veio em 1932.

Na ciência, o exemplo recente da Drª. Jaqueline Goes de Jesus é emblemático. Em 2020, enquanto o mundo parava diante do desconhecido, ela e sua equipe lideraram o sequenciamento do genoma do coronavírus em apenas 48 horas após o primeiro caso no Brasil. Assim que o primeiro paciente brasileiro testou positivo, a equipe usou uma tecnologia chamada MinION (um sequenciador portátil). Comparando com o sequenciamento genético que os pesquisadores da China já haviam divulgado, a nossa equipe brasileira conseguiu mostrar que o vírus que chegou ao Brasil era mais próximo das linhagens que estavam circulando na Itália, e não diretamente da China, ajudando a entender as rotas de transmissão e a preparar a resposta de saúde pública.

O que muitos não veem são os bastidores: a resiliência de pesquisadoras que, diante de cortes de verbas, muitas vezes investem recursos do próprio bolso para que a ciência não pare, como declarou a Drª. Tatiana Coelho de Sampaio, conhecida atualmente por liderar o desenvolvimento da polilaminina.

Essa garra também ecoa nos céus e nas quadras. Se hoje celebramos a precisão de Rebeca Andrade ou o reinado de Marta e Formiga, é porque antes delas existiram mulheres como Aída dos Santos, filha de pedreiro e de uma lavadeira, que marcou nossa história sendo a única mulher da delegação brasileira nas Olimpíadas de Tóquio em 1964. Sem equipe técnica, sem apoio da família (o pai dizia que medalha não traz comida para a mesa), sem apoio oficial, sem equipamentos próprios. Ainda assim, foi a primeira mulher a chegar numa semifinal olímpica e garantiu o 4º lugar no ranking.  

Anésia Pinheiro Machado, a primeira mulher a voar sozinha no país, abriu o espaço aéreo para que, recentemente, Carla Alexandre Borges, chegasse ao posto de 1ª mulher Tenente Aviadora da FAB (Força Aérea Brasileira operacional em aeronaves de caça de alta performance e para a Major Joyce de Souza Conceição que, se tornasse a primeira mulher a comandar uma unidade aérea na história da FAB.

Sem falar na Maria da Penha, cuja sua dor e luta pessoal foi transformada em lei, garantindo proteção para todas as mulheres, de todas as raças, credos e classes sociais. Sendo referência no mundo todo quando se fala em feminicídio.

Esse tema dá um livro, porque em cada cantinho desse nosso país, uma mulher que se levanta para garantir que todas nós tenhamos voz.

Enaltecer essas mulheres é reconhecer que o nosso presente foi construído por mãos que ousaram desbravar o impossível. Honrar a vida delas é ajudar a construir uma sociedade que não mate mulheres pelo fato delas se posicionarem, de dizerem “não” quando não desejarem algo, de desejarem ser (ou não ser) mães, ou empresárias, ou judocas, ou padeiras, ou tudo isso numa única vida! A gente só quer a liberdade e o respeito, de sermos quem quisermos ser.

Você Sabia?

Esporte proibido: Por 38 anos (1941-1979), as mulheres foram proibidas por lei no Brasil de praticar esportes como futebol e lutas, sob o pretexto de proteção à “natureza feminina”.

 A primeira médica brasileira: foi Rita Lobato Velho Lopes que precisou de uma autorização especial do Imperador D. Pedro II para estudar. Em 1887, ela se tornou a primeira mulher a obter o diploma de médica em solo brasileiro, enfrentando o imenso preconceito da época contra mulheres na ciência. 

A mãe das finanças: engenheira e mestre em administração, a millennial Cristina Junqueira, em 2013, grávida de sua primeira filha, estourou o teto de vidro do mundo financeiro-bancário ao fundar o Nubank, hoje avaliado em mais de 10 milhões de dólares.

* – Mariana Mascari Stanchevicz é mentora e empreendedora multifacetada. Adora café, cachorros e carros V8.

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