Cláudio Pissolito
Zé Pretinho, Zé da Baixada e tantos outros apelidos carinhosos que ganhou ao longo dos últimos 50 anos dos quais viveu de forma anônima na zona rural de Campos Novos Paulista o transformaram em personagem conhecido e querido.
Aos 90 anos ganhou nome, documentos, um lar, alguns amigos e, principalmente, dignidade, ao ser acolhido pelo Recanto de Campos Novos Paulista, uma ILPI – Instituição de Longa Permanência de Idosos -, que atende aqueles em situação de abandono social ou familiar. Faleceu na segunda-feira (02/03) em Marília, onde pela primeira vez na vida fazia tratamento médico regular.
Ninguém jamais soube o nome daquele homem simples, tímido e trabalhador que passou a viver na zona rural de Campos novos Paulista há mais de 50 anos. Ele mesmo não conseguia informar sobre sua história, limitando-se a dizer que viera de Ilhéus, município do litoral da Bahia.
Tinha como únicos bens uma enxada e um par de botinas, instrumentos que usava para trabalhar como diarista, mensalista ou simplesmente agregado de famílias de pequenos sitiantes que lhe garantiam trabalho e um teto.
Nos últimos 25 anos, passou a viver em uma casinha de madeira improvisada pelos amigos na faixa de domínio às margens da Rodovia Engenheiro Bruno Giovanetti, de acesso à BR-153.

Foi então que, de Zé Pretinho, passou a ser chamado também de Zé da Baixada, em referência à condição de aclive no trecho próximo ao riacho Água da Jacutinga onde passou a viver. Tinha como únicos amigos os sitiantes e os poucos moradores do bairro, que lhe ofereciam ajuda e monitoravam sua rotina.
Não era afeito aos modernismos. Preferia sua casinha de chão em terra, sem água encanada ou energia. Demorou para aceitar o primeiro “bico de luz” no quintal da casa que se formou com algumas palmeiras e um limoeiro.
Nunca usou fogão a gás. Chegou a ganhar um, mas devolveu alegando que esse tipo de aparelho doméstico é muito trabalhoso e que preferia recolher lenha no mato. Assim fez até os últimos dias em que viveu em sua pequena casa.
Recebendo assistência dos poucos vizinhos, principalmente do sitiante Francisco Salvador e de seus filhos Ricardo e Tania Mara, durante muito tempo prestou pequenos serviços de capinação e roçada a quem o chamava.
Ganhava algumas roupas, comida e recebia assistência oficial quando necessário, mas a falta de documentos, ou simplesmente de uma identidade, dificultava sua inserção em programas oficiais de assistência social.
Vivia anonimamente, exigindo muito pouco do mundo e quase nada das pessoas. Foi uma espécie de ermitão social, de pouca conversa e poucos conhecidos. Só adentravam sua casa rústica os mais próximos, que de certa maneira se transformaram em sua família. Muito se especulava sobre sua idade, pois não havia qualquer documento comprovando sequer seu nascimento.
Mas o tempo também passou para Zé Pretinho que, aos poucos, perdeu vigor, reduziu suas caminhadas e passou a ficar muito mais tempo dentro de casa. Já não conseguia recolher a lenha para o uso diário, tinha dificuldade para fazer seu cigarrinho de palha e quase não atendia à porta quando chamado, mas nunca pedia ajuda ou reclamava de qualquer incômodo.
Pelo acaso do destino, ou pelos designíos superiores, foi numa noite do final de setembro de 2025 que Zé Pretinho recebeu a visita do amigo Francisco Salvador, justamente quando passava muito mal, sozinho, isolado, sobre sua cama rústica, sem pedir socorro. Foi levado à cidade e medicado, mas dias depois voltou a piorar, quando foi internado em hospital de Marília.
A partir de então, a sorte sorriu para aquele homem que jamais pediu algo. Naquela semana havia aberta uma vaga no Recanto de Campos Novos Paulista, onde ele foi acolhido e passou a viver como membro de uma família de idosos muito bem tratados.
Com os esforços do presidente Claudinei Araújo Balbino e de sua equipe, que chegaram a usar meios judiciais, foram emitidos seus documentos pessoais, desde a Certidão de Nascimento que, depois de 90 anos, confirmou o assento de José Avelino, nascido em 31 de dezembro de 1935, em Ilhéus, na Bahia, seguida da Carteira de Identidade e até do CPF.

Assim nasceu de fato e de direito o José Avelino, o popular e querido Zé Pretinho ou Zé da Baixada, cidadão brasileiro, baiano de nascimento e campos-novense de coração e pela adoção dos bons amigos. Viveu pouco de forma oficial e muito de maneira anônima, mas morreu com a dignidade concedida por uma instituição séria e comprometida com o bem estar humano, que o acolheu justamente em seus últimos dias, que ficarão eternizados na memória de todos que com ele conviveram de alguma forma, incluindo o autor deste texto em sua mais que merecida homenagem. Adeus, Zé Pretinho.













