Há muito se sabe que o Brasil precisa de tratamento mental, que grande parte do povo sofre as dores da tristeza causada pela desigualdade da pobreza, que os miseráveis não tem acesso a bens básicos de sobrevivência e que o consumo de drogas aumenta na mesma proporção em que se reduz as esperanças em mudanças ou em dias melhores.
Em várias épocas, principalmente nos períodos de transição ou de eleições, surgem os salvadores da pátria travestidos de personagens que prometem transformações e que depois são transformados em grandes decepções, como Getúlio Vargas, o pai dos pobres que governou para os ricos e foi até ao suicídio.
Juscelino Kubitschek de Oliveira foi o realizador que deixou marcas apenas nos símbolos do poder, Jânio Quadros se fazia de bêbado para se popularizar e renunciou ao cargo em gesto típico de profunda ressaca moral, enquanto os generais da ditadura militar apenas cumpriram o surrado roteiro da subordinação e da dívida para com seus financiadores.
Tivemos Tancredo, a esperança que sequer foi empossada, seguido de Collor, que frustrou até a ele mesmo, até se chegar ao início da polarização entre direita e esquerda, no tempo em que os socialistas Mário Covas, FHC e José Serra eram tidos como direitistas e que Lula representava a utopia da esquerda que jamais seria concretizada.
Em todo o tempo transcorrido, desde quando o colonizador D. Pedro I nos tirou da condição de colônia, até quando o maluco Bolsonaro se tornou referência de educação, de família e de patriotismo, o sistema perverso do poder protegeu a todos de forma indistinta, fossem de direita, da esquerda ou do centro, como todos somos.
Na eleição mais repetida da história nacional, quando mais uma vez temos como única opção o menos pior, eis que surge uma esperança vestida e travestida da intelectualidade que protege os ricos e aceita os pobres como complemento necessário à terapia mental da nação dividida entre malucos de direita e malucos de esquerda.
É justamente no consultório da doença psiquiátrica cronificada pela desesperança que o médico especialista em dores humanas propõe a cura pelo uso do falso realismo do pensamento da direita e do pseudo bom coração de quem pensa pela ideologia das esquerdas.
Depois de espernear e uivar nas redes sociais, de babar nas discussões pessoais e de se armar de chumbo emocional para combater o inimigo que vive ou mora ao lado, finalmente estamos sentando no divã daquele que promete se tornar o antagônico de todos os demais.
Como uma espécie de Rivotril social sem contraindicação ou efeito colateral, o psiquiatra faz o tratamento coletivo da nação enlouquecida por meio de uma simples entrevista onde até o perguntador é corrigido com o respeito há muito esquecido pelos mitos grosseiros destes tempos sombrios.
Assim se cria mais um salvador da pátria, aquele que não precisa do poder, que abre mão da própria paz para oferecer a paz coletiva e que sequer pretende usar o cobiçado cartão corporativo muito criticado e extremamente usado por todos os que sentam na cadeira que leva o usuário do céu ao inferno em menos de um mandato.
Não se sabe se a fila de atendimento do psiquiatra nacional será eficiente o suficiente para atender a todos os doentes em pouco mais de mês, quando a maioria das doenças físicas sequer são identificadas e muito menos tratadas, mas já se percebe a busca frenética pela senha do consultório mental daquele que oferece o seu divã como única esperança de uma grande transformação que, certamente, não virá.












