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O moleque capeta da rua. Morava na penúltima casa do último quarteirão calçado de paralelepípedo. Daí em diante, só vielas em terra com pedregulhos e cercadas de barrancos baixos de canaletas onde sempre corria água suja. A divisa exata entre o centro da cidade pequena e a periferia, região repleta de meninos e meninas que estudavam em duas escolas muito próximas.

Depois das aulas, todos descalços e sem camisa, com estilingue no pescoço ou bola debaixo do braço. Matar passarinhos era normal e os de boa pontaria até elogiados pelos adultos. Futebol em espaços vazios era a maior diversão e garantia de sossego às mães que sabiam em qual campinho encontrar os filhos criados soltos e livres. O capetinha loiro e queimado de sol comandava as caçadas, as guerras de caroço de mamona verde e também organizava os jogos.

O quarteirão enorme, com duas ruas repletas de casas com espaçosos quintais divididos com cercas de balaustre. As outras duas ruas de terra eram de terrenos baldios onde havia apenas duas casas velhas e pobres, ambas de madeira escurecida.

Enorme espaço com arvores de raízes expostas forradas de matagais, mamonais e maravilhais. Pés de jaca, de laranja, manga, goiabeiras e duas jabuticabeiras gigantes cujas copas se emendavam no quintal aberto de terra batida e bem varrido da minúscula casa da Dona Amelinha.

O empecilho era o filho dela, um rapaz enorme que sempre aparecia de surpresa montado a pelo em um cavalo preto e de chicote na mão. Ninguém conseguia aproveitar as frutas doces sossegado. Qualquer trote na ruela de terra fazia todos sair em carreirão.

No canto superior daquele espaço grande e meio misterioso, a casa maior, de madeira com telhado baixo e alguns cômodos abertos e inutilizados. Lá morava Dona Ramira, um misto de benzedeira e prostituta.

Frequentavam a casa quase escondida pelo capinzal os doentes de amarelão, as mães zelosas pelos filhos emlombrigados, algumas jovens e velhas mulheres da vida e o mais conhecido pederasta da cidade, um senhor de meia idade, muito gago, sempre vestido de paletó sujo e puído.

No meio do capinzal alto os moleques se arrastavam para chegar até as rachaduras das paredes da casa e sondar com olhos curiosos tudo o que lá se passava. Alguns não chegavam perto para não ver as besteiras, mas outros saiam comentando detalhes do que viam e do que não viam.

A motivação era mesmo o futebol. Jogos organizados de improviso, times escolhidos alternadamente pelos donos das bolas, pelos maiores ou pelos melhores. Um pra lá e outro pra cá. Os pernas-de-pau e os gordinhos ficavam por último ou iam para o gol, não faltavam vagas.

As bolas de meia, recheada de papel, de plástico duro marrom ou aquela colorida molenga. A melhor mesmo era a de capotão, com gomos de couro costurados a mão, a que machucava os pés dos menores. Muito rara nas peladas de meninos meio que de rua. As traves de bambu, pedras ou sapatos amontoados.

Era o Time da Cocheira, desonroso nome batizado por culpa do Zico Leiteiro. Ele construiu uma cocheira de madeira roliça, cercada de arame farpado esticado para guardar seus cavalos, bem na divisa do campinho.

No pátio da ferrovia, ali perto, o Time da Linha. Mais abaixo, perto do Lixão, o Time da Prefeitura. Em seguida, o Time dos Pretinhos. Mais longe, o Time do Bodão. Cada qual com seu nome, de acordo com o líder ou a localização.

Os jogos se sucediam varias vezes ao dia, no orvalho da manhã ou no sol quente da tarde. Só parava quando não se via mais a bola. As regras eram aplicadas com frases repetidas: dois em um é falta, bola prensada é da defesa, goleiro não sai da área. 

A demarcação era de linhas imaginárias e as faltas marcadas dependiam mais da palavra de quem sofreu do que da negativa de quem cometeu. Ganhava-se no grito pela lei do mais forte, do mais barulhento, do chorão, do dissimulado, do mentiroso ou do velhaco. Como na lei da vida.

Dona Ramira benzia de Mau Olhado, Vento Virado, Lombriga Assustada e de Olho Gordo. Mas a especialidade mais procurada era mesmo a Tiriça, um amarelão que acometia crianças e adultos, que na medicina é denominada pelo complicado vocábulo Icterícia.

A cura era feita com sol a pino e o amarelento deitado na grama de pernas e braços abertos em forma de X. Dona Ramira se armava de uma enxada e com a quina afiada contornava a grama em torno do corpo do doente, enquanto cochichava uma reza forte, mas inaudível. A enxada acompanhava o formato do corpo com agilidade e levantava tufos de grama com terra vermelha.

No final dos trabalhos, o Tiriçento se levantava e deixava no gramado apenas a silueta do corpo, onde também jazia a doença. Enquanto não desaparecia o desenho não se podia pisar ali, sob castigo de pegar a Tiriça cortada na enxada.

Chegam animados mais de uma dezena de moleques esqueléticos sem camisa, descalços, carregando uma bola alaranjada e liderados pelo Diabinho louro. Todos ficam paralisados diante da cena inusitada, daquela mulher magra e alta, de saia comprida e lenço na cabeça, capinando o entorno de um senhor muito gordo e de barriga exposta, deitado na grama bem no meio do campo.

Em sinal de respeito e desconfiança, o silêncio assustado. Um olha para o outro incrédulo pela infeliz escolha de Dona Ramira. Ela termina a reza, aplica a última enxadada, se apoia no cabo longo da ferramenta suja, se dirige aos moleques com olhar morteiro de desprezo e vaticina: Quem pisar na Tiriça, pega a doença.

Atônito, o Capetinha branquelo solta a bola perto do gol e começa a chutar para o moleque maior. Ele devolve e outro entra na brincadeira de bobinho que vai se animando rapidamente. Em minutos estão todos envolvidos e até driblando na grama infestada de caules de guanxuma, uma espécie de arbusto conhecido como praga dos gramados ou pelo nome Macega. Planta de caule duro que entra no vão dos dedos e chega a fazer sangrar quando o moleque tem frieira muito profunda.

Eles já estão correndo pelo campo todo, mas quando a bola passa pela silueta da Tiriça, todos param e a esperam do outro lado. O Capeta da rua, o Diabinho loiro, o pequeno Demônio, o Moleque Satanás não se intimida com uma simples Tiriça. Começa a escolher os parceiros e a formar dois times para o jogo com uma nova regra: Na Tiriça não vale.

 

 

 

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