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Seu Coccozzi tinha um cofre. Era tudo o que ele tinha. Seu Coccozzi não colecionava pertences, apenas a roupa do corpo. Não possuía relógio, aliança, carteira, chapéu e nem mala de badulaques.

O cofre era grande, antigo até para a época, mais de metro de altura, pesado. Blindado em aço recheado de concreto, sistema mecânico, segredo esférico, de metal niquelado com ranhuras manchadas de ferrugem, chave longa, de ferro escurecido, igual a fechaduras antigas. Uma argola raiada de aço era o trinco da fechadura.

A chave enorme ficava dependurada em barbante rústico no passador da calça de Seu Coccozzi. Mas Seu Coccozzi não abria o cofre e também não saia de perto dele. Sua cama ficava ao lado daquele imaginado relicário verde escuro que, no alto da porta superior ostentava a inscrição em letras góticas: Famíglia Coccozzi. O letreiro, em amarelo desbotado, conferia mais aura de valor e importância ao velho e pesado móvel de aço.

Seu Coccozzi demonstrava debilidade, passos lentos e corpo curvado, mas os olhos azuis e brilhantes denunciavam vitalidade. Não saía de casa, apenas caminhava da cama até a mesa de madeira para o café da manhã e da tarde e as duas refeições com arroz, feijão, ovo frito e abobrinha cozida.

Tinha boca boa, comia de tudo, mas sempre faltava complemento. Uma boa carne gorda era rara, chegava à mesa apenas em dias especiais, assim como o frango de domingo que acompanhava a polenta com molho vermelho. De resto era silêncio, sentado na cama ou recostado numa cadeira de madeira articulada e com assento de lona listrada e puída.

Seu Coccozzi muito pouco falava além de resmungos, apenas cumpria o ritual da casa e mantinha aos pés da cama uma moringa com água que sustentava uma pequena caneca de alumínio que servia como tampa e que sempre molhava o piso de tijolos esbranquiçados.

Os dias lentos, amanhecidos com o canto dos galos e dos pássaros e as tardes e noites com latidos de cachorros e folhas das fruteiras do quintal engolidas para dentro do quarto pelas frestas da janela.

Prestimosa, todo dia Dona Rosa passava no chão uma vassoura de piaçava que arranhava os tijolos e, vez em quando, jogava água com sabão de cinza para manter o piso rústico bem alvejado.

Casa de madeira pintada de azul e apenas dois quartos. Seu Coccozzi e seu cofre ficavam no segundo dormitório, um agregado que merecia atenção diferenciada, enquanto Seu Pedro, um senhor negro, magro e de pequena estatura, trabalhava de guarda noturno e dormia de dia na despensa transformada em terceiro dormitório. Dona Rosa era soberana no quarto principal, de cuja cama de casal Seu Pedro não mais usufruía.

Tudo parecia bem arranjado, resolvido e sem necessidade de muita conversa. Seu Pedro chegava às cinco da manhã e, silencioso, com exceção da tosse crônica, se deitava na pequena cama entremeada nas prateleiras de tábuas que guardavam latas de mantimentos.

Só acordava por volta do meio dia para esquentar seu almoço e depois se lavar na bacia que ficava no banheiro separado do corpo da casa. O enorme recipiente de metal amassado era de uso comum e ficava pendurado no prego maior espetado na parede de madeira manchada de limbo.

Dona Rosa comandava sem muito falar, apenas com as regras tácitas estabelecidas. Recebia visitas na varanda da frente, protegida por uma cerquinha alta de ripas entreliçadas. Quase todo começo de noite ficava na frente da casa, sentada em cadeira postada na calçada da rua onde juntava vizinhos para conversar os mesmos assuntos da véspera.

Pele e olhos muito claros, cabelos grisalhos e longos, sempre arranjados em birote recoberto pelo lenço que trocava de cor a cada dois ou três dias. Vestidos floridos, até os pés, chinelos rústicos e voz vibrante entrecortada de longas gargalhadas que só ressoavam da porta para fora. Seu Coccozzi permanecia alheio, deitado ao lado do cofre ou sentado na cadeira de lona. A chave pendurada na calça.

Poucos questionavam a presença de Seu Coccozzi, mas o que se comentava de boa vontade é que Dona Rosa praticava ato de caridade ao recolher o velho senhor em sua casa simples. Outros desconfiavam do cofre e alguns criticavam o fato de Seu Pedro dormir na despensa e trabalhar a noite, mesmo depois de aposentado.

Outras versões especulavam que Seu Coccozzi tinha vivido com outras duas famílias interessadas no conteúdo do cofre, mas que não tiveram paciência para esperar o momento de fazer jus à herança reparadora. Entretanto, dúvidas e suspeitas eram esquecidas nas longas conversas que entravam pelas noites quentes amenizadas pela brisa que chegava depois das nove, quando todos se recolhiam.

O tempo passava lentamente, como moroso e longo era cada dia daquela década de 1960 no interior sem televisão. O rádio valvulado era o entretenimento com novelas interpretadas ao vivo com rica sonoplastia. Tudo parecia muito monótono, mas por trás da falta de acontecimentos só mesmo segredos bem guardados.

Hipertenso crônico, Seu Coccozzi mantinha absoluto segredo sobre a doença e se dizia proibido de ingerir qualquer tipo de diurético, sob pena de morrer aos poucos. Só exigia remédios para combater gases intestinais. Diariamente, antes do desjejum, ele recebia uma cápsula que seria ideal para a simulada flatulência, mas que vinha fora da embalagem e ele deglutia junto com o primeiro gole de água na caneca da moringa.

Com boa visão e estrategista, Seu Coccozzi já havia distinguido o símbolo do laboratório impresso no comprimido diurético que muito necessitava diariamente e, sem pestanejar, resmungava e fingia passar mal toda vez que o ingeria.

Mas a idade chegou também para Seu Coccozzi, que um dia não teve tempo sequer para a despedida ao velho cofre. Amanheceu morto, constatado quando Dona Rosa levou seu sagrado diurético matinal travestido de pílula para gases. Sem surpresa e sem lágrimas, apenas a preocupação com o custo do enterro.

A notícia correu e os vizinhos chegaram, muito mais para saber sobre o destino do cofre do que prestar solidariedade. Feitas as contas, descobriu-se que o funeral seria de custo elevado para as posses de Dona Rosa. Por sorte e interesse, o enorme cofre ao lado do cadáver incentivou a decisão de investidores: um cunhado e um neto de Dona Rosa. Seu Coccozzi ganhou um caixão barato e uma sepultura na parte mais distante do cemitério.

Foi-se Seu Coccozzi e ficou o seu cofre. Um vizinho lembrou que, mesmo sem parentes conhecidos, seria preciso autorização legal para abri-lo. Mais despesa com o custo de advogado e depois do chaveiro, que usou até um estetoscópio para valorizar o trabalho.

Suspense e silêncio. O profissional se concentrou, descobriu cada sinal do segredo e depois usou a velha chave que durante anos ficou suspensa na calça de Seu Coccozzi. De uma só virada no trinco da fechadura, foi acionado o ferrolho grosso que rangeu na ferrugem acumulada. A porta se abriu.

Como imaginado, apostado e esperado por quase uma década, encontrou-se muito dinheiro em grandes maços amarrados no interior daquele velho cofre, cujo segredo foi mantido até a morte de Seu Coccozzi. 

Dona Rosa, sempre muito discreta na presença do Seu Pedro e da família, não se conteve e retirou quase tudo de uma só vez, numa braçada que varreu a divisória superior do cofre.

Pacotes de notas e muitas moedas caíram no chão de tijolos alvejados. Genro e neto se engalfinharam nas sobras que passaram do alcance de Dona Rosa, mas de imediato constataram que se tratava de cédulas e patacas de Réis, impressas e cunhadas em Londres entre 1920 a 1940, envelhecidas e sem valor para os tempos em que se adotava o Cruzeiro como unidade monetária nacional.

 

 

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