‘A união deles foi até na hora da morte’, diz filha sobre pai e mãe que morreram no mesmo dia por coronavírus

No dia 5 de janeiro deste ano, Alcides Albano Gomes, de 80 anos, e Maria de Lourdes de Souza Gomes, de 85, completaram 60 anos de casados. E se tem uma palavra que os filhos usam para definir o casal, de Pirapozinho (SP), é união. Foram seis décadas dedicadas à família, e um ao outro. A cumplicidade foi tanta que os dois morreram no mesmo dia, vítimas também da mesma doença, causada pelo coronavírus.

 

Alcides é de Marília (SP) e Maria de Lourdes, de Aracaju (SE). Eles se casaram no Oeste Paulista e tiveram quatro filhos, dez netos e seis bisnetos. O segundo filho do casal, Carlos Alberto Gomes, de 53 anos, contou ao G1 que o pai apresentou sintomas do novo coronavírus primeiramente.

 

“Ele começou a ter febre e sintomas de gripe. Foi ao Hospital Regional [HR] de Presidente Prudente (SP) e o médico falou que era pneumonia. Deram medicação, foi para casa, mas a febre não passou. Quando ele voltou para o HR, já foi direto para a UTI [Unidade de Terapia Intensiva] e foi entubado”, disse.

 

Conforme o HR, o idoso foi internado na unidade no dia 30 de maio. Já a esposa deu entrada no hospital no dia 3 de junho. “Primeiro ela procurou o Pronto-socorro de Pirapozinho, mas foi encaminhada para o HR. Também chegou e já foi entubada. Eles chegaram a fazer o teste rápido, mas deu negativo. No HR, eles fizeram o outro [swab] e o resultado veio positivo para o coronavírus”, explicou Gomes.

 

A filha mais nova do casal, Regina Aparecida Gomes, de 45 anos, relatou ao G1 que os pais saíam apenas quando necessário para ir a banco, mercado ou farmácia, e a mãe tinha medo de ser contaminada pelo covid-19. “Eles não estavam saindo muito e sempre tomando cuidado, usando máscara, álcool em gel e água sanitária para limpeza. Minha mãe tinha muito medo de pegar a doença”, falou.

 

O casal morava sozinho em uma residência e a filha, que também vive em Pirapozinho, sempre visitava os dois. Ela e o irmão afirmam que os pais eram muito unidos e faziam tudo juntos. “Faziam orações juntos, tomavam café juntos e, quando precisavam sair, também eram juntos. Sempre os dois”, relatou a filha.

 

“Eles nunca faziam nada separados. Nunca ficaram longe um do outro. Essa união foi passada para toda a família”, disse o filho.

 

A PARTIDA

No último sábado (27/06), a família foi avisada pelo hospital de que Maria de Lourdes havia morrido. No mesmo dia, no final da noite, veio a notícia de que Alcides havia morrido também. “A união deles foi até na hora da morte”, contou Regina. Ela afirmou que o pai não ficou sabendo que a esposa tinha falecido, já que ele estava entubado e inconsciente. “Mas acho que ele sentiu, porque o médico falou que ele se mexeu quando ela morreu. Era uma ligação muito forte entre eles”, destacou ao G1.

 

Regina também contou que a família torcia pela melhora dos dois e pela alta hospitalar. “Ficamos surpresos com a partida deles no mesmo dia, mesmo com a união dos dois. Claro que a gente esperava que fossem receber alta. Apesar de que, se tivesse ido apenas um, o outro iria sofrer muito. Também não ficaria muito tempo sozinho”, enfatizou.

 

Os filhos ainda comentaram sobre o momento difícil da perda e os protocolos de saúde que não permitem velório. “Não tem velório. Colocam o corpo dentro de um saco e depois no caixão”, disse Regina. “Não pudemos fazer um velório digno para nos despedir. Não deu nem para colocar uma roupa de que eles gostavam. É muito triste”, salientou Gomes.

 

DOR E SAUDADE

Com a perda ainda recente, a família tenta superar o momento e faz um alerta. “Muita gente não está levando a sério essa doença. Só quem passa por isso, perde alguém, sabe como é esse sofrimento”, enfatizou Gomes.

 

O terceiro filho do casal, Paulo Gomes, mora em Jacareí (SP) e foi o único que não esteve no município de Pirapozinho para acompanhar o enterro dos pais. “Eram exemplos para todos nós. Nossos pilares. Os dois deixaram um grande legado, a união da família e boas lembranças”, pontuou Gomes. “Eles eram batalhadores e muito religiosos. Trouxeram tudo de bom para nós. O que nos resta é dor e saudade”, finalizou a filha.

Fonte: G1

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