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A afirmação básica do Evangelho é a valorização incondicional da pessoa! Por isso, as opções de Jesus estão, sempre, em conflito com os interesses sociais, políticos, econômicos e religiosos de sua época e da nossa.

Vivemos no tempo do materialismo, da rotulação e da indiferença. Um tempo em que as pessoas são avaliadas, lembradas, medidas ou reverenciadas mais pelo que têm do que pelo que são; mais pelo que falam do que pelo que fazem; mais pelo que vestem do que pelo que valem; mais pela aparência do que pelo coração; mais pelo status do que pela presença; mais pelo poder do que pelo serviço; mais pelo dinheiro do que pelos valores; mais pelo grau de instrução do que pela sabedoria; mais pelo gênero do que pela dignidade…

Apesar de viver neste mundo e neste tempo, precisamos aprender a romper com as obviedades deste nosso mundo e deste nosso tempo. Se queremos dar o “corte” temos que avançar para águas mais profundas, conforme a dica do Evangelho de Lucas 5,1-11: “Certo dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado, e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca.’

É preciso abrir-se à oportunidade de mudança; acolher os motivos de alegria; dar razão à esperança; permitir a hora da parada e entender o tempo do silêncio. Isso significa, conforme o Evangelho: dar atenção à Palavra; tomar decisão pessoal; fugir do consenso; sair da obviedade; renunciar o rótulo. O evangelho é construção de fé a partir do Mistério, por isso é, ainda, tarefa de cada um de nós, hoje.

Quando a oportunidade da mudança se abre e não mudamos, a vida se torna alvo da mais dura descrença e imobilismo, roubando a coragem de um coração que fica relegado à sombra da desconfiança e do medo. Mudar é sadio porque significa crescimento, desinstalação, descoberta e avanço.

Quando o motivo de alegria acontece e não nos alegramos a vida se converte em abismo intransponível ou, quem sabe, em poço da ingratidão escavado pelo racionalismo mórbido, pela insensibilidade e pela indiferença. A alegria do coração é vida para o ser humano porque possibilita, a qualquer pessoa, manter-se de cabeça erguida e contente, mesmo em meio às contradições, incertezas e males.

Quando a razão da esperança ilumina e não ‘esperançamos’, a vida, facilmente ou fatalmente perde o brilho, fica apagada, perde o sentido e se desespera. A esperança é o carro chefe da liberdade. É ela quem permite aos que põem os pés no caminho, olhar para frente, recuperar o entusiasmo, desabrochar para a confiança e perseverar na fé. Ter esperança é aprender o diálogo na tensão passado-presente-futuro.

Quando a hora de parar desperta e não paramos, a vida se torna um cansaço permanente, roubando a energia de um corpo que realiza cada vez menos, interage cada vez menos e é empurrado, cada vez mais, para compensações de momento para aliviar o estresse, o cansaço e os pesos. Compensação não vale a pena; não é nada bom; não interessa; desumaniza. Bom mesmo é aceitar o limite do corpo e permitir-se parar.

Quando o tempo é do silêncio e não silenciamos, a vida fica ruidosa e incomunicável, desgastando qualquer palavra e tirando a força dos ouvidos. Silêncio não é emudecimento; não é deixar de falar. Silêncio é, antes de tudo, saber falar, saber calar, saber escutar. Tal atitude requer o encontro com a Palavra (de Deus) na sua pureza. Porque, aliás, a voz de Deus é o Silêncio.

Coloque sua vida num novo tempo: avance para águas mais profundas!

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