Com enredo sobre lavadeiras africanas, Viradouro encerra jejum de 23 anos e é campeã do Carnaval do Rio
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A Viradouro é a campeão do Carnaval 2020 do Rio. A escola, que defendeu o enredo “Viradouro de Alma Lavada”, somou 267,6 pontos, que garantiram seu segundo título do Grupo Especial, depois de um jejum de 23 anos. A disputa foi acirrada e emocionante, com Grande Rio e Beija-Flor, decidida apenas no último quesito, harmonia.

 

Vice-campeã de 2019, a Unidos do Viradouro apresentou uma dupla de novos carnavalescos: Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira. Os dois passaram com louvor no teste de substituir Paulo Barros e manter a escola de Niterói competitiva. Contando a história das ganhadeiras de Itapuã e toda a riqueza da cultura negra baiana, a Viradouro fez um desfile empolgante e de visual de impacto.

 

A comissão de frente levou o público ao delírio com uma componente vestida de sereia, que ficava submersa em um tanque d’água. A bateria de mestre Ciça levantou as arquibancadas com um arsenal de paradinhas ousadas e bem ensaiadas. A Viradouro saiu da avenida com a sensação de dever cumprido.

 

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DESFILE QUASE PERFEITO

Um banho de bom gosto. Essa frase pode definir com exatidão o que fez a Unidos da Viradouro em seu desfile no Grupo Especial no último domingo. Novamente, como a segunda a desfilar, tal qual em 2019, a agremiação deu um bico nas estatísticas (que colocam escolas com esse posicionamento de desfile em colocações ruins) e fez uma apresentação arrebatadora. O conjunto plástico criado por Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira é seguramente um dos maiores já levados pela Viradouro em um desfile.

O desfile beirou a perfeição. Porém, alguns deslizes podem comprometer o sonhado título. Ainda mais se tomarmos em conta que o Grupo Especial é muito equilibrado. Um buraco na altura do segundo módulo de julgamento e a última alegoria que passou apagada boa parte da avenida são pequenos detalhes no mar de bom gosto, mas que contam na hora da apuração, embora tenha o descarte da nota mais baixa e mais alta de cada quesito. A Unidos do Viradouro apresentou o enredo ‘Viradouro de alma lavada’ e concluiu sua apresentação com 66 minutos.

 

Uma boa comissão é aquela em que o enredo está resumido nela. E a Viradouro novamente conseguiu fazer isso com Alex Neoral, um dos mais competentes coreógrafos do carnaval. ‘Velhos areais de nossos ancestrais’ foi título da apresentação proposta era caracterizar as zungueiras lavadeiras, ancestrais das lavadeiras, vindas da África. No requebro do corpo saudavam Oxum.

 

A apresentação aliou tradicionalismo, dança e o fator surpresa que hoje é praticamente uma obrigação em comissões competitivas. No primeiro momento da apresentação as dançarinas evoluíam com roupas no tom marrom claro com bacias nas mãos. Depois arrancavam aquelas vestimentas e por baixo indumentárias muito coloridas. No último terço da apresentação, elas subiam no elemento alegórico de apoio, que revelava um aquário com um sereia que nadava com muita sensualidade, jogando água para cima. arrancando aplausos do público. A apresentação cometeu um pequeno deslize no módulo 1, quando um das bacias foi amassada quando o aquário subiu.

 

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Um bálsamo para os olhos poder assistir a evolução e o bailado de Julinho e Rute. Uma apresentação firme, tradicional e perfeita. Com a fantasia ‘O sol para a liberdade’ eles protagonizaram a luz do amanhecer e mostraram a importância do sol para a prática do ganho das escravas lavadeiras. Julinho e Rute formam um dos melhores casais do carnaval não é à toa. As terminações de movimentos estiveram perfeitas, a troca de olhares e o romance entre eles foi de emocionar. Cantando o samba todo o tempo, sorrindo, apresentando o pavilhão corretamente. Três apresentações perfeitas.

 

Enredo

A Viradouro iniciou o desenvolvimento de sua proposta narrativa através do setor ‘Prelúdio das águas’. A intenção dos carnavalescos era fazer um mergulho nas águas da lagoa do Abaeté e no mar de Itapuã. O resgate de ganhadeiras históricas evidenciam o que estava por vir. O requinte e o bom gosto de Tarcísio e Marcus, com um setor inteiramente dourado. Em seguida veio o setor ‘Bando do Mercadejo’ trouxe os diversos ganhos das ganhadeiras, tudo com uma riqueza grande de detalhes nos figurinos e muita leitura.

 

A partir do terceiro setor, ‘Caixinheiros de terreiro’, a escola decide mostrar os terreiros que se tornam ateliês para a produção de manufaturas. Em seguida veio o quarto setor, ‘Festa na aldeia’, quando o enredo passou a mostrar as manifestações folclóricas que influenciaram o surgimento do grupo das ganhadeiras. No setor cinco, ‘Sagrada-matriz, ‘ as festas dos padroeiros São Tomé e Senhora de Santana à Conceição. Para encerrar a proposta do enredo veio o setor ‘Os tesouros do Brasil’, onde outros grupos folclóricos formados por mulheres passaram pela avenida.

 

Setores bastante claros na proposta com a leitura vista na avenida bastante coerente em relação àquilo que foi defendido no livro abre-alas. Enredo de densidade cultural, que bebe muito na fonte do feminismo, tema atual que permeia a sociedade brasileira. Tudo com o requinte e bom gosto que se esperam de um desfile do Grupo Especial.

 

Fantasias

Sem qualquer sombra de dúvida foi o grande destaque do desfile. Poucas vezes se viu a Viradouro tão luxuosa na Sapucaí. Certamente vai ser um dos melhores conjuntos de fantasias deste ano, mesmo restando muitas escolas para passar na avenida. Foi tanto bom gosto que fica até difícil citar alas que se destacaram, sob o risco de cometer injustiças. Para fazer isso podemos apontar um de cada setor. No primeiro, a ala ‘Pai pescador’, no segundo o destaque foi a ala ‘Fuá da marcação’, sem falar nas baianas quituteiras. A sequência permanece com a ala ‘bugingueiros de artefatos’, no setor 3, ‘Malê Debalê’, a bateria, no quarto, ‘Festejo de Santana’ no quinto e “Cantadeiras do Sisal’ no sexto e último.

 

Alegorias e adereços

Conjunto grandioso, que facilitou a compreensão do enredo corretamente. O abre-alas era impressionante, inspirado em elementos do barroco baiano pr mostrar o prelúdio das águas. O segundo carro trouxe bicas em neon, simulando quedas d’água. Recurso muito criativo que deu grande realismo à alegoria. O terceiro carro foi um dos mais belos do conjunto todo, em prata predominante e uma iluminação que fazia a alegoria ter vários tons.

 

A quarta alegoria representava a formação cultural do grupo das Ganhadeiras, surgido em 2004. ‘Nas escadas da fé é a voz da mulher foi o quinto carro’. Lamentavelmente a última alegoria do desfile, ‘As ganhadeiras de Itapuã – o xé que veio da Bahia’ passou apagado, o que pode representar perda de décimos em mais de um módulo de julgamento.

 

Evolução

Quem acompanhava os ensaios de comunidade da Viradouro nas ruas de Niterói sabia que a escola viria muito forte neste quesito na avenida. De fato a evolução esteve perto da excelência. Entretanto é sabido que a Sapucaí tem seus mistérios. Um buraco se formou no módulo dois, ‘que pode prejudicar a escola. Foi notável também que algumas alas passaram mais andando que evoluindo na parte final do desfile, na altura do último módulo de julgamento.

 

Harmonia

A escola passou cantando forte o samba o tempo todo. E foi possível perceber algo que raramente se vê nos desfiles de escola de samba desde que ele se globalizou. Arquibancadas e frisas sabiam a obra e impulsionaram a harmonia. A Viradouro entregou exatamente aquilo que prometeu, muito canto.

 

Samba-Enredo

Excelente desempenho da obr viradourense na avenida. Zé Paulo e a bateria impulsionaram a apresentação. E tal qual era esperado antes do desfile, o ensaboa enlouqueceu o Sambódromo. Toda a escola gritava esse trecho, orgulhosa de seu samba.

 

Outros Destaques

A bateria também levantou a Sapucaí com uma paradinha onde um atabaque gigante entrava no meio dos ritmistas. Um ijexá, toque de Oxum, foi realizado várias vezes no desfile. Um dos apoios de Julinho e Rute não conteve a emoção ao assistir à última apresentação do casal no setor 10. Uma cena tocante que evidencia o quanto é difícil a rotina dessas pessoas. Zé Paulo Sierra veio com uma fantasia representando a ancestralidade dos primeiros negros que chegaram no Brasil.

Fonte: Uol e Carnavalesco

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