Ligações Perigosas

            Há pessoas que não percebem – ou não querem perceber – que fazem escolhas pelas quais terão de responder um dia. Aceitam auxiliares, assessores, “braços direitos” sobre os quais paira uma névoa que tangencia a tênue separação entre o que pode ser considerado ético e aquilo que talvez não seja.

            Alguns procuram se livrar do desconforto e agradecem a colaboração. Preferem optar pela mais absoluta lisura. Levam a sério aquela velha advertência de que “não basta ser honesto; é preciso também parecer honesto”. Outros se acomodam e, sob argumento da eficiência, ou de que precisam de um “cão de guarda”, que afaste a importunação, conservam as figuras emblemáticas.

            Tudo tem um preço.

            Como não se desconhece, é da experiência da vida, consegue-se enganar alguns durante todo o tempo; muitos durante muito tempo; mas é impossível enganar a todos, durante todo o tempo.

            Chega o dia em que “a casa cai”. E essas escolhas vão refletir nos projetos de quem não se soube livrar das ligações perigosas.

            Quem percebe mais de perto, chega a um dilema. Ou o assessorado é um imbecil, semi-imputável, desprovido de discernimento, e então não mereceria mesmo qualquer consideração. Ou – e a alternativa é trágica – ele é conivente. Mais explicitamente: é cúmplice.

            Não existe a terceira via. Por isso, não é surpresa quando o véu da credibilidade é rasgado pela preservação de pessoas que estão muito distantes do ideal de virtude presente no discurso. Retórica, promessas vãs, platitudes e jargões surrados já não convencem ninguém.

            Palavras proferidas às enxurradas só cansam o ouvinte enojado com a mentira, com a falácia, com a embromação e com o verdadeiro estelionato, perpetrado a cada biênio, por ocasião de nova eleição. O que cala é o exemplo. Um grama de conduta é mais convincente do que uma tonelada de proclamações vazias e inócuas.

            Não é garantido que os interessados aprendam com a surra. Talvez prefiram continuar com as más companhias. Na certeza de que prevalecerá a ignorância, a boa-fé, o despreparo do eleitor.

            Torço, como cidadão que tem de acreditar no futuro, que eles estejam errados. E que não tenham mais vez no Brasil que brada, urgente e insistentemente, por mais compostura na política.

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