Mau gosto didático

“…lulistas e bolsonaristas, sem distinção de sexo, credo ou raça, padecem do mesmo mal repetidos em praias e nos campos de futebol…”

 

A postagem de péssimo gosto e de infeliz iniciativa do presidente Jair Bolsonaro em sua conta no Twitter, em que publicou vídeo de uma pessoa manipulando o ânus e depois alguém urinando na cabeça da mesma, mostra o absurdo nível da polarização política pós eleitoral também alimentada pelo chefe da Nação, que acredita seja essa a forma mais eficaz de se comunicar. Ainda que grande parcela da população, justamente a menos informada e a que mais deseja confundir a opinião pública, represente a massa de usuários das redes sociais, já se percebe sinais de exaustão e de perda da credibilidade nesse meio de informação.

A repercussão negativa causada muito mais pelos que estão diuturnamente fiscalizando cada passo do atual presidente, os mesmos que endossam os desmandos e a corrupção da ex-presidenta e do ex-presidente, mostra de certa forma a falta de infraestrutura para grandes eventos públicos e escancara o desrespeito moral de poucos para com a maioria. Cenas dos inúmeros carnavais das mais diversas regiões mostram, como sempre foi, que a festa popular anual é mais um período de liberalidade, de menos censura oficial e pessoal e de algumas explícitas manifestações de instintos primitivos descontrolados.

O primeiro acorde de qualquer canção carnavalesca, seja a tradicional marchinha do século passado ou o Funk pancadão da atualidade, funciona como senha para a libertação dos pudores, das reprimendas e das vergonhas pessoais, uma espécie de catarse social para um país desigual, injusto e violento, cuja população goza da liberdade limitada às suas parcas posses e às muitas restrições de escolaridade e cultura. Mesmo com enormes diferenças entre as festas carnavalescas dos blocos das favelas aos grupos organizados dos bairros mais abastados, até os camarotes milionários, nos quatro dias de folia transpira-se a sensação de certa igualdade.

É justamente diante dessa liberdade temporária assistida, da proximidade entre castas sociais pelos mesmos abadás, e pela percepção de que ao menos um dia somos mais iguais, é que se cometem os exageros. Prova cabal de que ricos e pobres, comunistas e capitalistas, lulistas e bolsonaristas, sem distinção de sexo, credo ou raça, padecem do mesmo mal repetidos em praias e nos campos de futebol, são as montanhas de lixo como resíduo, o odor de urina que impregna os espaços usados e a defecação pública de violência, xingamentos, palavrões e pornografias. O mau gosto do presidente tem certo didatismo.

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Cláudio Pissolito

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