Já vai longe o tempo em que a sociedade sabia dar valor às pequenas virtudes. Não que essas inexistam no campo pessoal dos que buscam uma vida agradável. Senão aos olhos dos homens, ao menos aos olhos de Deus elas são preciosas Para muitos, virtudes são caretices, invenção de beatos. Não combina com a voracidade dos tempos atuais. Para outros, é uma prática concernente à vida religiosa, da qual pouquíssimos comungam coerentemente. Que cada qual cuide de seu queijo, senão o outro leva!

            Lembra aqui velha anedota escolar, quando um padre, um jovem político e um caboclo viajavam juntos pelo sertão. Numa casa seus moradores deram-lhes um pequeno pedaço de queijo, o pouco que podiam oferecer aos inesperados viajantes. Sem saber como dividir a pequena refeição, combinaram entre si de que o queijo seria daquele que, naquela noite, tivesse o sonho mais bonito.

            Na manhã seguinte cada qual contou seu sonho. O padre, como lhe convinha pelos conhecimentos do ofício, disse ter sonhado que subia aos céus pela escada de Jacó e enquanto o fazia, contemplava um mundo cheio de ganância e miséria, que deixava para trás sem nenhuma tristeza. O jovem político, mais ardiloso, disse que, no sonho, já estava no céu, à espera do padre. E o caboclo?

            – Bem, eu sonhei que via o padre subindo a escada, enquanto o doutorzinho aqui já o esperava no céu. Gritava aos dois que voltassem, pois esqueceram o queijo. Como não me responderam e como já gozavam das alegrias do céu, comi o queijo…

            Não importa o sonho. A realidade é que, enquanto muitos tecem planos para se apossarem das prendas que pensam merecer; enquanto a lábia de alguns produz teorias e planos para surrupiar egoisticamente o que um gesto de partilha, mesmo do pouco, contentaria a todos, Deus dá aos pobres a inteligência necessária para receberem o quinhão que os mantêm vivos.

            A verdade é que todos constroem suas interpretações de virtudes, desde que delas possam se aproveitar, receber algum benefício. Infelizmente, tanto no campo religioso, quanto no campo político, as interpretações se moldam mais aos interesses pessoais. Enquanto sonham com um paraíso pessoal, pobres se contentam com as migalhas de uma cruel realidade. Não fosse essa paciente e obstinada virtude da simplicidade e da sabedoria popular, o que seria daqueles que pensam conduzir o destino do povo? Que sonham gozar das alegrias celestes ainda em vida? Que caminham com o povo com o olhar gordo sobre o pouco que lhes sobra? Que ambicionam até o último naco de um queijo mal partilhado?

            Nenhuma virtude terá valor, nenhum dogma religioso, nenhum ideal político, se não houver por primeiro a prática da caridade, rainha das virtudes. Por primeiro, o pequeno, o pobre. Depois, sim, poderemos sonhar com nosso paraíso pessoal. “Aspirai aos dons superiores. E agora, ainda vou indicar-vos o caminho mais excelente de todos” (1Cor 12,21). A caridade não se restringe a um simples pedaço de queijo. Com uma renúncia, mesmo que circunstancial, ela será autêntica. Pois cinco pães e um peixe alimentaram uma multidão no deserto. Não sonhe com o céu nas alturas, quando por primeiro devemos sonhar com o céu entre nós. Pois que a escada de Jacó é o caminho mais curto entre o Céu e a Terra…, desde que saibamos partilhar com justiça aquelas sacas de trigo distribuídas entre irmãos. Sem trapaças, sem orgulho, sem privilégios… 

Então está dito: nem religião, nem política, nem astúcia pessoal. O que nos levará ao céu, ao confronto de nossas misérias com a abundância da casa paterna, é a prática das virtudes que a fé nos exige. Faça delas a fonte de energias das quais necessita, para não reclamar um dia que alguém lhe roubou seu queijo…

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