Porandubas Políticas – nº 5.736 – Gaudêncio Torquato

A primeira parte da coluna tem como foco uma leitura dos governantes. Quais são os sete pecados capitais dos administradores? Confiram.

  • Parte I

Olhando no espelho

Os governantes não gostam de ver seus retratos em preto e branco. Só a cores. Ou seja, com muita cor, muito adorno. Alguns se olham no espelho, como a madrasta da Branca de Neve, e perguntam: “espelho, espelho meu, há alguém mais competente do que eu”? O deleite que desfrutam na cama do poder acaba desenvolvendo neles uma cultura de fruição e gozo, que lhes enfraquece a capacidade de ver as coisas com isenção, acuidade e objetividade. Tornam-se imunes à realidade.

Pecado 1 – A insensibilidade

Cobrem-se com um manto que os deixam em estado contínuo de dormência. O poder provoca delírios e, assim, com o porre que lhes adormece as mentes, os governantes cometem seu primeiro pecado capital. É o pecado da insensibilidade. De tanto ver de perto, eles se desacostumam a ver de longe. Da tênue autoconfiança do início do governo, passam a maximizar essa qualidade, após três anos com a caneta na mão. Transformam-se em imperadores, donos do mundo, senhores de capitanias hereditárias. Incorporam o Complexo de Olimpo, com toda sua aura divina.

Pecado 2 – A onipotência

Com tal identidade, as realizações e programas do governo deixam de ser algo inerente à função de governar para se transformar em feitos pessoais do governante magnânimo e generoso. A população é inoculada com a injeção mistificadora que projeta a identidade física do governante sobre o conceito jurídico do governo. E o pior é que os governantes acabam se achando com a cara de Deus. Flagra-se, aqui, seu segundo pecado capital, o sentimento da onipotência.

Pecado 3 – A crença na grana

O mandonismo imperial está calçado no poder monetário. Os governantes decidem o quê, onde e como fazer. O planejamento orçamentário contemplará obras fundamentais, porém não deixará de atender o varejo eleitoral. O governo Federal cria um novo PAC. Os governos estaduais, PACs fragmentados. Com dinheiro nos cofres, não perderão a eleição. E aqui está seu terceiro pecado capital. A crença na força absoluta da grana.

Pecado 4 – A rotinite

Depois de meses de incessantes atividades administrativas e políticas, os governantes amolecem a musculatura e começam a padecer de rotinite aguda. Os Estados e municípios comem apenas o feijão e o arroz necessário à magra existência. Não há nenhuma criatividade, não se buscam soluções inteligentes e inovadoras. E o caldo insosso acaba gerando o quarto pecado capital dos governantes, a rotina.

Pecado 5 – A improvisação

Daí para o quinto pecado, o salto é pequeno. Pois os governantes já não obedecem a uma agenda planejada. Não administram seus tempos de acordo com um sentido de prioridades e lógica. Tudo ocorre ao bel-prazer. E a desorganização grassa, bagunçando as malhas burocráticas e gerando muita improvisação. Mas tudo vai as mil maravilhas, para eles, porque os seus assessores mais próximos capricham no puxa-saquismo. Vivem fazendo elogios, escondem as coisas malfeitas, sobrevalorizam os feitos positivos.

Pecado 6 – A bajulação

As assessorias desqualificadas e os grupinhos de “luas-pretas” constituem um dos maiores danos à imagem e à eficácia dos governos, descortinando o panorama do sexto pecado capital, a bajulação consentida. E lá se vão os governantes desfilando suas glórias, feitos e emoções à imagem e semelhança do Criador. Suas carruagens de fogo e seus cometas planetários trafegam pelos céus, deixando rastros de nuvens coloridas que se esvaem nos ventos do tempo. De tanto andarem de sapato de salto alto, os governantes acabam pisando nos pés do povo.

Pecado 7 – A ausência de senso comum

Têm respostas prontas para perguntas que não são feitas. E são capazes de provar que o melhor para as massas desprovidas e incultas é aquilo que eles acham que elas merecem. Não acreditam em pesquisas. Fogem delas como o diabo foge da cruz. E, nesse ponto, os governantes abrem seu inferno para comemorar o sétimo pecado capital, a ausência do senso comum.

Será o Benedito?

Às vésperas da escolha do interventor de Minas Gerais, em 1934, Benedito Valadares se encontrou no Rio de Janeiro com José Maria Alkmin:

– Se você for o escolhido, me convida para secretário?

– Você está louco, Benedito? Respondeu um divertido Alkmin.

Dias depois, Getúlio Vargas anunciaria a escolha de Valadares, que logo recebeu um telegrama:

– Parabéns. Retiro a expressão. Ass. Zé Maria. Zé Maria Alkmin acabou nomeado secretário do interior.

(Historinha mandada por Álvaro Lopes.)

Mais uma da dupla.

O engodo

A matreirice sempre deu o tom na política nacional. No dia 31 de março, data do golpe dos militares para depor João Goulart, Benedito Valadares encontra-se com José Maria Alkmin e Olavo Drummond no aeroporto de Belo Horizonte. Benedito joga a pergunta: Alkmim, você está indo pra onde? O matreiro ex-ministro da Fazenda responde ao governador: vou para Brasília. Benedito puxa Olavo Drummond pelo paletó e tasca: ah, ah, ah, ele está querendo me dizer que vai para o Rio de Janeiro. Mas ele vai mesmo para Brasília. Velha artimanha das raposas políticas. Digo a verdade para o interlocutor desconfiar da informação. Um engano de segundo grau. Dizer a verdade e gerar desconfiança.

Um povo descrente

Um povo descrente é como um rio seco. Um povo sem esperança é como uma árvore desfolhada, sem viço e com a cor das coisas mortas. O povo brasileiro pena amarguras no deserto frio das desesperanças. Vive um avançado grau de desânimo e morre um pouco todos os dias ao sabor da febre intermitente dos sonhos desfeitos. Milícias e mortes por desvios de balas. Um povo sem sonhos é uma entidade sem espírito e sem direção. Tiraram-lhe a vontade, a admiração pelos ritos da pátria e o respeito às instituições. O clima de terra devastada em que se transforma o país, as acusações que pululam de todos os cantos, os interesses em choque e a polarização entre duas bandas políticas afastam grupos sociais do sistema político, abrindo vazios entre os poderes decisórios e a sociedade.

  • Parte II

Raspando o tacho

– Javier Milei começa a viver a realidade política. Depois de execrar o presidente Lula, faz uma amistosa carta de convite para sua posse na presidência da Argentina.

– Minha saudosa mãe já dizia: meu filho, nunca diga – desta água, não beberei.

– Tudo indica que o amapaense Davi Alcolumbre se sentará novamente na cadeira de presidente do Senado, com o apoio do atual presidente Rodrigo Pacheco, que, por sua vez, sonha governar Minas Gerais.

– Lula dá ao STF um vigoroso suporte com a escolha de Flávio Dino, um juiz preparado. O Maranhão está em festa.

– Inimaginável ver o governo Lula, com os cofres abertos para o corpo congressual, ter de negociar projeto por projeto. Compras caras.

– Gangues de drogas chegando em peso ao litoral do Nordeste, invadindo recantos turísticos.

– Greve dos funcionários do metrô é teste para o governo Tarcísio de Freitas.

– O mais próximo da cadeira do Ministério da Justiça, até o momento, é o ex-ministro do STF, Ricardo Lewandowski.

– A Pasta da Justiça pode ser desmembrada para dar lugar a mais uma: a da Segurança Pública. O país vê aumentado o índice de violência.

– Se a área da Segurança pode trazer intensa visibilidade ao gestor, pode também ser uma fonte de desgaste.

– Joe Biden está apertado. Enfrenta pressões internas e externas. E Trump ganha, hoje, nas pesquisas.

– A guerra Ucrânia x Rússia desapareceu do mapa. Os russos estão aproveitando do fato para incrementar seus ataques. Está em vantagem.

– O PT não está satisfeito com as escolhas de Lula para o STF e para a PGR. E deve fechar o bico. Críticas? Muitas nos bastidores.

Fecho a coluna com as linguagens do momento.

Dez linguagens para o final de 2023

1. A linguagem da afirmação da identidade.

2. A linguagem da factibilidade/credibilidade.

3. A linguagem das pequenas coisas.

4. A linguagem da participação – o NÓS versus o EU.

5. A linguagem da verificação – exemplificação – como fazer.

6. A linguagem da coerência.

7. A linguagem da transparência.

8. A linguagem da simplificação.

9. A linguagem das causas sociais – a leitura dos mapas cognitivos do eleitorado.

10. A linguagem da tempestividade – rapidez/oportunidade/proximidade.

(Adaptado do meu livro Tratado de Comunicação Organizacional e Política)

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Gaudêncio Torquato jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo e diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

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A coluna Porandubas Políticas, integrante do site Migalhas (www.migalhas.com.br), é assinada pelo respeitado jornalista Gaudêncio Torquato, e atualizada semanalmente com as mais exclusivas informações do cenário político nacional.

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