Seminarista faz peregrinação diária em morro atrás de sinal de internet para estudar: ‘No monte igual Moisés’
Compartilhe

“É como Moisés, mas subo no monte para pegar o diploma”, brinca o estudante e seminarista Cleiton Fernandes, 32 anos, que mora na zona rural de Piedade (SP), e precisou se adaptar durante a pandemia para conseguir estudar. Assim como Moisés subiu na montanha para receber as tábuas da Lei, Cleiton faz o trajeto para conquistar o diploma.

 

Desde o começo da pandemia da Covid-19, esse foi o espaço que Cleiton encontrou para se conectar. Ele está há seis anos no Seminário Arquidiocesano São Carlos Borromeu de Sorocaba (SP), e estuda Filosofia na Universidade de Sorocaba (Uniso), como parte da formação sacerdotal.

 

A casa dos pais fica na zona rural de Piedade (SP), no bairro Godinhos. O local que ele encontrou para estudar está a dois quilômetros, caminho que percorre a pé ou de carro. “Moro perto da Serra de Paranapiacaba, em Piedade, que é cercada de morros bem altos. Para conseguir sinal de internet e estudar, eu tive que procurar um lugar alto e com sombra, até terminar as atividades do curso”, comenta Cleiton ao G1.

 

Assim como as cerimônias religiosas que passaram a ser online durante a pandemia, as aulas presenciais foram adaptadas para o ensino a distância. Alunos e professores de todos os níveis e modalidades precisaram se adequar ao sistema remoto.

 

“No seminário, a gente tinha estrutura de internet e um espaço específico para estudar. Durante a pandemia, cada um teve que voltar para casa”, conta Cleiton.

 

O seminarista está no último semestre da graduação. Mesmo tendo notebook e celular, precisa da internet para conseguir fazer as atividades acadêmicas e participar das reuniões e celebrações religiosas diárias, como parte da rotina do seminarista.

 

“Minha casa fica a cinco quilômetros da zona urbana, mas sempre dependi de Lan House ou casas de conhecidos para ter acesso à internet.”

Cleiton conta que no começo da pandemia voltou para a casa dos pais e deixou os materiais de estudo no seminário.

 

No bairro onde ele mora, durante muito tempo, as redes de telefonia e internet não faziam serviços de instalação. Atualmente, com a tecnologia e a possibilidade de ter acesso a internet via satélite ou rádio, a situação está mudando.

 

“Até um certo período da quarentena não tínhamos internet em casa, apenas telefone fixo. Depois, pensamos em instalar para que eu pudesse estudar. Veio então a internet em fibra ótica, mas ainda sim continuo indo até o morro, porque lá consigo mais privacidade e consigo fazer as minhas tarefas sem interrupções”, conta Cleiton.

 

VIVER O SEMINÁRIO NA CASA

Antes do seminário, Cleiton estudou Ciências Contábeis, trabalhava em um escritório e dava aulas de Contabilidade. A decisão de ser padre não veio muito cedo. Foi acompanhando as cerimônias religiosas, que começou a sentir o chamado pela vocação.

 

“Eu comecei a fazer a preparação aos 26 anos, antes de entrar no seminário. Quando entrei, já estava ciente de que seria difícil, mas fui preparado”, relata Cleiton.

 

Além das aulas pela internet, os seminaristas em tiveram que enfrentar outro desafio: viver o seminário fora do seminário. As atividades presenciais foram suspensas durante a pandemia e eles voltaram para casa.

 

“De certa forma, estar na zona rural acabou me ajudando. Sempre gostei de estar em lugares altos para refletir e ter contato com a natureza. É como uma ligação com Deus e sua obra. Acabei voltando à minha origem, às minhas raízes”, finaliza Cleiton.

Os compromissos foram adaptados às telas do celular, mas segundo Cleiton, nada substitui o encontro presencial.

 

CORONAVÍRUS NA ZONA RURAL DE PIEDADE

De acordo com Cleiton, há vizinhos e familiares que foram contaminados pelo coronavírus na zona rural de Piedade.

 

De acordo com o último balanço divulgado pela Prefeitura de Piedade, são 266 casos registrados na área rural, que representa 57% de incidência. Enquanto que na área urbana são 197 casos positivos e constitui 43% do índice.

 

O pai de Cleiton é comerciante e a mãe trabalha como agricultora, ambos têm 60 anos. Cleiton explica que na casa todos tentaram ao máximo se proteger.

 

“No começo, meu pai teve que se afastar do trabalho, mas ele acabou voltando e não parou mais. Minha mãe continuou trabalhando. Várias pessoas que vivem perto pegaram Coronavírus, não adianta todos se protegerem, enquanto um não.”

Fonte: G1

Compartilhe

Deixe uma resposta