Agosto Lilás: o dinheiro que é seu também é uma forma de proteção

Por Bruna Lima Belordi Pontremolez*

Há uma pergunta que nós, mulheres, precisamos aprender a fazer sem culpa: “Se amanhã eu precisar recomeçar, eu tenho condições financeiras para seguir?”

Não é uma pergunta sobre casamento. Não é uma pergunta sobre amor. Não é uma pergunta sobre desconfiar de quem está ao nosso lado. É uma pergunta sobre liberdade.

Neste Agosto Lilás, enquanto falamos sobre violência contra a mulher, talvez seja hora de ampliar a conversa. Porque violência não começa necessariamente com um tapa. Às vezes, começa quando alguém passa a controlar nosso salário, esconde documentos, impede que trabalhemos, contrai dívidas em nosso nome, decide sozinho como o dinheiro da casa será utilizado ou nos convence de que não precisamos ter uma conta bancária própria.

A Lei Maria da Penha, em seu artigo 7º, IV, define como violência patrimonial a retenção, subtração ou destruição de objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores, direitos ou recursos econômicos da mulher, inclusive aqueles destinados às suas necessidades.

Isso significa algo que muitas de nós ainda precisamos ouvir: dinheiro também é assunto de direito. E falar sobre independência financeira, portanto, não é transformar a mulher em uma máquina de produzir dinheiro. É falar sobre autonomia, dignidade e possibilidade de escolha.

Durante muito tempo, ensinamos nossas meninas a serem cuidadoras, companheiras, mães, esposas, profissionais dedicadas. Mas quantas aprenderam a ler um contrato? Quantas sabem exatamente quanto ganham, quanto gastam e quais bens estão registrados em seu nome? Quantas têm uma reserva financeira que não depende do conhecimento ou da autorização de outra pessoa?

Independência financeira não significa necessariamente ter um salário alto. Pode começar com pequenas atitudes: conhecer a própria renda, acompanhar a movimentação bancária, guardar documentos, compreender contratos, saber quais dívidas existem em seu nome e ter, quando possível, algum dinheiro reservado para emergências.

Conhecimento financeiro é uma forma silenciosa de proteção.

E há uma diferença importante: não estou dizendo que toda mulher precisa abandonar um relacionamento, nem que ter dinheiro resolverá uma situação de violência. Também não podemos colocar sobre a vítima a responsabilidade pelo comportamento do agressor.

Estou dizendo outra coisa: quanto maior a autonomia, maior pode ser a capacidade de tomar decisões quando a vida exigir.

Neste ano, a campanha Agosto Lilás, ganha ainda um significado especial: a Lei Maria da Penha completa 20 anos. A legislação, tornou-se um dos principais instrumentos brasileiros de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher.

Mas uma lei só alcança plenamente sua finalidade quando a mulher conhece os direitos que ela garante. Por isso, neste Agosto Lilás, minha proposta é que conversemos entre nós sobre dinheiro.

Sem vergonha. Sem julgamento. Sem a ideia de que falar sobre patrimônio é falta de romantismo. Vamos ensinar nossas filhas a trabalhar, mas também a negociar salário. Vamos ensinar nossas mães a cuidar da família, mas também a olhar seus próprios documentos. Vamos ensinar nossas amigas a amar, mas sem abrir mão da própria identidade. Vamos ensinar que ter uma conta, uma profissão, uma reserva, conhecimento e documentos sob nosso controle não significa amar menos.

Significa saber que, se a vida nos obrigar a escolher um novo caminho, teremos pelo menos uma parte do caminho em nossas próprias mãos.

E talvez essa seja uma das conversas mais importantes que uma mulher pode ter com outra mulher neste Agosto Lilás:

“Você sabe o valor do seu trabalho. Você conhece os seus direitos. E, principalmente, você não precisa pedir permissão para construir a própria liberdade.”

(*) Bruna Lima Belordi Pontremolez- Especialista em direito das Famílias

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