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Toda mulher tem uma bolsa. Ou as bolsas têm as mulheres. São como apêndices ou membros adicionais que trocam de cor e formato a cada dia ou em cada ocasião. Faz parte da anatomia feminina o inseparável recipiente com boca de zíper ou de amarras feito de couro cru, natural ou sintético, de courvin, plástico, lona, barbante, pele, tecidos variados e ornados com franjas, pingentes dos mais diversos, ou bordados em fios de linha e até de ouro, prata e pedrarias.

Além da diversidade de materiais para a confecção, a bolsa também varia de tamanho, de ornamento, de capacidade interna, sempre peculiar ao momento ou à finalidade que a mulher a destina, partindo da minúscula, na qual mal cabe uma moeda de centavo, até a enorme que carrega badulaques impensáveis e de muito provável peso exagerado.

Diz-se que a bolsa remonta à origem da humanidade, cujas tribos nômades necessitavam de receptáculos para carregar alimentos, provavelmente resultantes da caça. Então, parece mesmo que a bolsa está de fato enraizada na vida humana, cujos primitivos já as retratavam como símbolos nas pinturas rupestres feitas em rochas em que foram identificadas imagens femininas com bolsas penduradas no braço. É a prova mais cabal de que se trata de um elemento atemporal e específico de gênero.

Na moderna atualidade do consumismo globalizado, a imagem da mulher continua se confundindo com a bolsa. Basta observar as ruas, as lojas, os restaurantes, os bares, as cabeleireiras e os shoppings. Fazem-se desfiles permanentes, continuados, ininterruptos e sem intervalos de mulheres pelos corredores de piso marmorizado e cercado de vitrines iluminadas com bolsas novas e muito apropriadas para todas as ocasiões. As ainda não adquiridas despertam a cobiça daquelas que passam a sentir vergonha de seu acessório antigo, desgastado e já muito conhecido naquele mesmo ambiente.

Além de membro adicional permanente e inseparável da mulher, a bolsa também é representativa da condição social e econômica de cada portadora, da ideologia política e da mentalidade ambientalista individual, da origem familiar e geográfica, do gosto estético mais apurado ou absolutamente despojado, além de também indicar outras características insondáveis da personalidade feminina. Neste sentido, a bolsa é mais que uma identidade, pois além de revelar detalhes do comportamento de quem a carrega, também mostra características do pensamento coletivo e da convicção individual. Um verdadeiro retrato nu e cru exposto junto ao corpo de cada uma delas.

Mulheres belas, elegantes, altas, com ou sem salto, muito bem maquiadas, que convencem como refinadas e muito se esforçam para mostrar superioridade pessoal e social em qualquer ambiente, são as que carregam bolsas enormes e de alças curtas penduradas no ombro direito. O objeto se transforma em detalhe adicional, observado de baixo para cima, de difícil identificação do selo de origem, muito provavelmente do mais renomado.

As lindas baixinhas empertigadas também preferem as bolsas enormes e com alças compridas que deixam os fundos quase que se arrastando pelo chão. Mesmo desproporcional, a etiqueta que indica o valor elevado do acessório compensa a visível assimetria entre ambas, ou não.

As exibicionistas de roupas exuberantes e corpos muito ou pouco delineados e sempre bastante expostos, preferem as coloridas, listradas, chamativas e ornadas de muitos metais e pedras. Nestes casos, as bolsas apenas complementam o exotismo do conjunto da obra.

Senhoras precavidas preferem caminhar agarradas às suas bolsas recheadas de mistérios e não as perdem de vista em qualquer ocasião. Para fazer a retirada de objetos, praticamente entram de cabeça em suas enormes aberturas para evitar a curiosidade alheia. As frequentadoras de cafés, bares e restaurantes têm enorme habilidade em pendurá-las nos encostos das cadeiras sem jamais perder o contato físico com aquele elemento insubstituível.

As moças desafetadas, mais despretensiosas da vaidade feminina, não assumem a bolsa em sua concepção original, como elemento de moda compulsória, mas não abrem mão de alternativas como as indefectíveis pochetes ou as sacolas de lona rústica e mochilas que servem às mesmas finalidades. Já as alternativas, de hábitos naturalistas, que se vestem na moda hippie ou riponga, também têm o acessório como indispensável, desde que seja de matéria prima ecologicamente correta, feito, por exemplo, com palha de carnaúba, no formato esférico e pendurado em cordinha longa de sisal.

Enfim, enumerar os tipos, modelos, origens e preços de bolsas e a variedade de gosto das mulheres das mais diversas origens, credos ou classe econômica pode estender este estudo mais que o suportável, motivo pelo qual vamos abrir espaço para a imaginação do esforçado e curioso leitor que conseguiu chegar até aqui. Vamos apenas reforçar alguns estereótipos que certamente não passam despercebidos da maioria.

Exemplo claro do senso comum é que, aquelas que usam as bolsas mais caras, a custo de um carro popular, não se preocupam muito em desfilar com seus objetos de grife, enquanto outras de condição econômica superior fazem exibição permanente, mas deixam dúvidas quando à originalidade do produto utilizado. Outras que podem, mesmo que com muito sacrifício, usar produto semelhante de custo elevado, não o fazem para que as grifes verdadeiras não sejam confundidas com pirateadas devido à falta de sintonia entre o provável preço do acessório e a aparência modesta de quem o usa.

Diante deste textão dedicado apenas a observação do secular comportamento feminino diante das bolsas, sacolas, embornais, pochetes, mocutas e mochilas, fica um singelo conselho . Quando estiver em público, na rua, na chuva, no shopping, no bar, na boate, na fazenda ou numa casinha de sape, não perca tempo observando as bolsas das mulheres, para que sua imaginação não divague de forma inútil como aqui fizemos.   

 

 

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