Brasil exporta humus e craques

“…raciocínio aplicado à exportação de riquezas agrícolas e minerais também se aplica ao futebol brasileiro…”

Há mais de 50 anos, o político Leonel Brizola denunciava o Brasil como exportador de humus, a matéria orgânica que garante a fertilidade do solo, em referência ao envio de produtos in natura para o exterior, sem qualquer manufatura para agregar valor e gerar emprego, como é o caso dos grãos e dos minérios.

Patriota por convicção e não por ocasião, Brizola foi voz ignorada pelas chamadas elites e acusado de “comunista”, como se faz até hoje, mas fez história como único brasileiro a governar dois estados, o Rio Grande do Sul e, depois de exilado, o Rio de Janeiro.

Entusiasmado, combativo, defensor da educação e com ideias e práticas nacionalistas, Brizola morreu em 2004 e foi convenientemente esquecido pela pobre historiografia política brasileira que registra muito mais os escândalos do que os grandes feitos, sempre raros.

Entretanto, sua pregação em defesa da industrialização da matéria prima produzida e exportada para o mundo continua válida, pois o PIB brasileiro ainda é composto em grande parte pelas riquezas que saem da terra, cada vez mais exploradas e exauridas, e menos pelos produtos acabados e de maior valor adicionado.

O mesmo raciocínio aplicado à exportação de riquezas agrícolas e minerais também se aplica ao futebol brasileiro, formador de jogadores diferenciados que se destacam nos grandes clubes da Europa, mas que quase nada produzem para os seus formadores e muito menos para a Seleção Brasileira.

Vendidos muito cedo e milionários muito jovens, se transformam em grandes negócios para empresários e clubes e acabam perdendo a essência do futebol arte que os levou ao estrelato, já que a administração da fama e das fortunas que acumulam demandam muito mais tempo e energia do que o próprio ofício.

Assim como nossas riquezas agrícolas e naturais desaparecem nas indústrias americanas, europeias e asiáticas, transformadas em produtos de elevado valor, os jogadores brasileiros no exterior se subordinam à forma de jogo mais pragmático e tático e menos surpreendente.

Com menos força física e sem a liberdade criativa e a intuição que faz da plástica a beleza do futebol brasileiro, quando estão na Seleção não conseguem usar o improviso e a arte natural que sempre fez a diferença a nossa favor e, condicionados ao estilo europeu, se tornam jogadores comuns ou são barrados por falta de disciplina tática, como acontece com o menino craque Endrick.

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Cláudio Pissolito

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