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Passando com frequência pelo mesmo trecho para visitar as cidades próximas de cobertura do jornal, comecei a notar a presença de um andarilho muito bem instalado na parte gramada da margem direita da rodovia no sentido Oeste. Percebi que ele usava um estranho carrinho feito de madeira rústica, incluindo as quatro rodas.  Aquilo servia de dormitório e como meio de transporte, pois de tempo em tempo mudava de lugar, sempre na mesma direção.

Pautei como matéria e decidi entrevistar o homem que vivia só naquela inusitada armação artesanal. Estacionei o automóvel no acostamento e caminhei até o veículo, onde encontrei um senhor negro e alto, de barba e cabelos crescidos, deitado num colchão posto sobre um estrado também de madeira. Ele me atendeu com má vontade e perguntou do que se tratava, quando me apresentei e propus uma conversa gravada. Ele concordou com a entrevista e a publicação, mas explicou que não iria se levantar porque estava em horário de descanso após o almoço. Achei estranho, mas me contive para facilitar o diálogo.

Começamos justamente pela questão da alimentação, pois percebi várias marmitas descartáveis de alumínio jogadas próximas ao carrinho. Ele explicou que recebia alimentação de caminhoneiros e também de proprietários de postos de gasolina que lá deixavam almoço e jantar. Diante do perceptível mau humor do entrevistado, também não questionei o descarte incorreto das embalagens.

O que mais me chamou a atenção foi que ele usava no entorno da cabeça, em forma de tiara, um pedaço de fumo grosso. Perguntei o motivo e ele foi curto e grosso como o fumo do tipo goiano que ficava acima das orelhas: – serve para espantar mosquito. Entretanto, sua justificativa mostrou-se bastante duvidosa, pois as poucas partes expostas de seu corpo estavam salpicadas de minúsculas feridas causadas por insetos, várias delas inflamadas.

Sobre o uso do carrinho, ele afirmou que antes de viver na estrada trabalhou como marceneiro e que havia construído aquela estrovenga com as próprias mãos. Não duvidei, pois se tratava de uma armação bastante rudimentar, com dois eixos que prendiam as rodas também de madeiras, uma espécie de tablado para acomodar o colchão velho e sujo e algumas ripas que serviam como cabides para as poucas peças de roupas que levava. Corroborando a possibilidade de construção própria, havia um martelo e alguns pregos num pequeno compartimento ao lado do colchão. Na parte de baixo, próximo aos eixos, identifiquei outro nível de suporte, bem menor, também de ripas, usado como uma espécie de bagageiro.

Na medida que ganhei sua confiança, ele foi se soltando e passou a falar com mais fluência, explicando que morou numa cidade do interior de São Paulo, que não me lembro, e que havia saído de casa há seis anos porque a esposa era má e brigava muito. Se negou a falar de filhos ou outros familiares e muito menos de amigos ou conhecidos, mas insistiu que seguia em direção a Assis, de onde estava a mais ou menos 30 quilômetros.

Como sua locomoção era curta, lenta e interrompida por longas permanências nos locais mais agradáveis, com preferência nas áreas arborizadas, deduzi que poderia ter outras conversas caso não conseguisse todas as informações para a matéria. O sol quente, as moscas que rodeavam o mendigo e os restos de comida nas imediações foram motivos da minha pressa.

Com informações suficientes para publicar uma pequena reportagem sobre a vida de um andarilho diferenciado, que usava um carrinho feito com as próprias mãos para se locomover, me dei por satisfeito e fiz as perguntas finais, sobre suas expectativas e necessidades na estrada. Ele se apressou em dizer que precisava muito de laranjas, porque a fruta servia para ajudar na digestão, pois estava sofrendo de gastrite. Mais uma vez achei estranho a fruta cítrica servir de remédio, mas novamente evitei questionamentos.

No sábado daquela mesma semana a matéria foi publicada com uma chamada simples de capa e o conteúdo interno ilustrado com uma foto a distância do carrinho e outra bem próxima do rosto do mendigo com sua tiara de fumo. Achei que o texto ficou bom e que poderia chamar a atenção dos leitores com um assunto que fugia ao usual, já que o cotidiano das pequenas cidades não oferecia pautas muito diferenciadas.

No domingo, por volta das 14 horas, quando eu também descansava após o almoço, atendi ao telefone fixo, o pré-celular. Na linha estava a senhora que presidia o Fundo Social de Solidariedade da Prefeitura, justamente a irmã da primeira prefeita da nossa cidade, uma mulher solteira que a tinha como uma espécie de primeira-dama. Ela estava muito irritada e de imediato perguntou o motivo de se fazer uma reportagem em jornal com um “sujeito cretino e sem educação como aquele mendigo do carrinho de madeira”.

Só passei a entender o motivo da ligação e do questionamento depois que ela explicou o acontecido. Disse que leu o jornal no sábado pela manhã e se comoveu muito com a história do homem que vivia sozinho e que precisava de laranjas para melhorar a digestão comprometida. Amanheceu o domingo pensando naquele andarilho solitário e resolveu oferecer sua contribuição como cidadã e pessoa pública, que dirigia uma entidade assistencial.

Descendente de italianos, preparou uma suculenta macarronada a parmegiana, assou frango em pedaços e complementou com um pernil suíno. Fez ainda maionese e salada verde para o almoço especial de domingo, que seria servido com vinho tinto e refrigerante.

Antes mesmo de almoçar, pegou uma vasilha de louça e separou macarrão, frango e carne. Em outro recipiente colocou a maionese e a salada, acomodando tudo numa cesta de pão feita de palhas fixadas com presilhas aramadas. Para completar o cardápio, um generoso saco de laranjas frescas e muito doces, compradas naquele mesmo dia na feira livre.

Acomodou a cesta no porta-malas do automóvel e se dirigiu à rodovia principal, a cerca de seis quilômetros de distância por uma vicinal de acesso. Logo avistou o estranho carrinho de madeira à beira da estrada. Fez o contorno e estacionou próximo. Desceu, se apresentou, explicou que havia lido a reportagem no jornal da cidade e que por isso levava a comida e as laranjas que ele tanto precisava.

Para sua surpresa, o mendigo olhou friamente para ela, recolheu apenas o saco de laranjas e emendou: – A senhora não leu direito o jornal ou o repórter não escreveu corretamente, pois eu disse que precisava apenas de laranja. E simplesmente devolveu a cesta com a deliciosa comida feita com muito carinho e preocupação de uma mulher sensível às necessidades alheias.

 

(homenagem à querida amiga Marilaide Tronco, já falecida, irmã da nossa sempre prefeita Marilena Tronco)

 

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