Denúncias vieram à tona depois que vítima publicou relato do assédio nas redes sociais. Quatro mulheres já registraram boletim de ocorrência contra o suspeito de Bauru (SP).
A Polícia Civil abriu um inquérito por importunação sexual para investigar o tatuador de Bauru (SP) suspeito de assediar mulheres durante as sessões e por mensagens de texto. As denúncias foram feitas depois que uma das vítimas publicou o relato do assédio nas redes sociais.
A delegada da Delegacia da Mulher (DDM) de Bauru responsável pelo caso informou que já ouviu os depoimentos de três vítimas, além do suspeito. As oitivas ocorreram na quarta-feira (5). Segundo a delegada, o celular do tatuador deve passar por perícia.
Prints
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Prints de conversas atribuídas ao tatuador de Bauru mostram que ele teria enviado mensagens pedindo fotos dos seios para uma das vítimas (veja no topo da reportagem).
Para preservar as vítimas, nenhuma mulher ouvida pela reportagem será identificada (leia depoimentos abaixo).
Em nota, o advogado de defesa do tatuador disse que medidas judiciais estão sendo tomadas em relação à postagem nas redes sociais que trouxe à tona as denúncias. Informou também que o cliente e familiares têm recebido ameaças por conta da repercussão do caso na internet.
“Acreditamos na justiça, e ela será revelada em momento oportuno, se ele é culpado ou inocente será provado na Justiça, como deve ser e como funciona o estado democrático de direito”, afirma o advogado Fernando E. Antônio.
“O que não se pode admitir é punir um suposto crime cometendo outro, que é expor alguém na internet, incitando a violência, de uma forma que meu cliente está recebendo ameaças de morte, inclusive ameaças de seu filho de dois anos”, completa o advogado.
Conforme as denúncias, as mulheres relataram que o tatuador guarda fotos íntimas das clientes no celular e que, no ambiente de trabalho, passa a mão nos corpos delas sem consentimento.
Nos registros, supostamente o tatuador pediu fotos dos seios de uma cliente em diversas posições. O suspeito também teria dito que queria “ter acesso ao corpo” e “liberdade de ver” a mulher (veja acima).
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A vítima que recebeu as mensagens contou que não fez as tatuagens que queria com o profissional, já que ficou constrangida.
“Ele me mandou mensagem, pedindo para eu ser modelo dele. Disse que meu corpo era ideal para alguns modelos de tatuagens que ele queria fazer. Eu, na inocência, fui respondendo. Porém, eu achava que era no profissional, até ele me pedir fotos, que foi quando vi que era na maldade”, lembra.
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Já a mulher que fez a primeira denúncia nas redes sociais explicou o que a motivou a expor o caso. Ela possui duas tatuagens feitas pelo profissional.
De acordo com a vítima, durante a sessão para fazer uma tatuagem íntima abaixo do seio, em 2020, o tatuador a assediou com comentários referentes ao seu corpo.
“Eu recebi uma mensagem de uma mulher que teve acesso ao celular dele. Ela também me ligou chorando, falando que tinha visto uma foto minha nua no celular dele, enquanto eu estava distraída. No dia que eu descobri, eu fiz a publicação nas redes sociais, porque vi que não tinha sido um caso isolado. Eu percebi que o atendimento foi abusivo naquela época quando eu fui em outro profissional retocar a tatuagem e esse outro atendimento foi humanizado”, lamenta.
Por conta do que vivenciou no estúdio, a vítima disse que não consegue mais tatuar, com medo do que pode voltar a acontecer.
“Como mulher, eu me sinto muito mal sabendo que a gente não pode ter 100% da nossa liberdade e segurança. Eu recebi relatos de outras mulheres falando que ele tinha tentado beijar elas à força. Me deu tanto nojo que minha cabeça não aguentou. Eu não conseguia dormir, comer. Me sinto mal em saber que, em pleno 2022, a gente ainda passa por essa situação. A gente merece respeito. Creio que o passo que dei foi um passo importante. Tanto que nunca mais eu consegui tatuar”, afirma.
Imagens no celular
A primeira mulher ouvida pela reportagem do g1 também é tatuadora e trabalhou por três anos sem registro na empresa do suspeito. Como eles eram amigos, ela explicou que tinha acesso ao celular do tatuador.
“Uma vez entrei na galeria de imagens dele por inocência e a foto de uma mulher nua estava lá, como outras fotos de clientes quase totalmente peladas distraídas. Ele é uma pessoa que manipula situações e faz parecerem normais”, relatou.
A mulher também contou que o suspeito ameaçou demiti-la e processá-la por calúnia e difamação. A tatuadora registrou boletim de ocorrência e ainda coletou as fotos do celular do homem como prova.
Medo de denúncia
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Uma segunda mulher relatou que o tatuador pediu que ela usasse uma calcinha que abrisse nas laterais para fazer o desenho na coxa dela. A vítima ainda disse que ficou com medo de denunciar o assédio.
“Eu fiz essa tatuagem com ele, na qual ele pediu que eu usasse a calcinha que abrisse do lado. Eu fui, mas, durante a sessão, ele ficava empurrando a calcinha, porque ele falou que ficava atrapalhando. Tanto que teve uma hora que a calcinha caiu e eu pedi para colocar de novo, mas ele disse que era artista e estava acostumado com isso”, contou.
Fotos nuas
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A terceira mulher contou que demorou a perceber o que havia acontecido com ela. Ela narrou que queria um orçamento para uma tatuagem no meio dos seios. Para elaborar o preço, segundo ela, o tatuador pediu fotos.
“Primeiro que ele pediu para mandar foto sem a blusa. Eu mandei. Mas ele disse que o sutiã não deixava desenhar direito a tatuagem. Eu mandei tampando com a blusa. Ele disse que assim também não dava para visualizar a tatuagem. Eu mandei tampando apenas os mamilos. Ele disse que era melhor mandar com eles naturais”, relatou.
Meses depois, a mulher lembra que fez o orçamento em outro estúdio e notou a diferença no atendimento.
‘Me senti muito desconfortável’
Uma quarta vítima entrou em contato com o g1 para denunciar o assédio que vivenciou com o tatuador. À época, a mulher explicou que procurou o suspeito para fazer uma tatuagem íntima também no meio dos seios.
“Ele me informou que eu teria que enviar fotos sem nada para ele analisar se daria para ser feita a tatuagem. Ele disse que não poderia ser de sutiã ou biquíni, já que era esse o procedimento, que ele era profissional e que eu poderia confiar”, explicou.
No dia do procedimento, a mulher ficou sozinha com o suspeito no estúdio de tatuagem. Durante a sessão, a vítima relatou que, assim como para outras mulheres, o tatuador pediu para que ela não usasse blusa.
“Ele disse que estava atrapalhando o trabalho dele, então tentei me tampar com as mãos, mas ele pediu para eu tirar. Em uma dessas vezes que ele pediu para eu retirar a mão, ele tocou no meu mamilo. Eu disse que não gostei, ele pediu desculpas e continuou a tatuar. Ainda fez diversos elogios, disse que meus seios eram bonitos”, afirmou.
Ainda segundo a mulher, o tatuador manteve contato com ela pelas redes sociais e afirmava ter “saudades de tatuá-la” (veja acima).
“Me senti muito desconfortável e com medo. Eu só queria sair de lá e nunca mais voltar. Assim que eu fiz, nunca mais voltei lá, nem retoquei a tatuagem e por muito tempo fiquei calada por medo de não ter provas.”
Levantou o vestido
A quinta vítima relatou que escolheu o suspeito para fazer uma tatuagem íntima próxima à virilha. De acordo com ela, o profissional a deixou desconfortável.
“Foi muito desrespeitoso. A pior coisa que fiz na minha vida, foi muito vergonhoso. Eu cheguei em casa e chorava. Ele fazia comentários super desnecessários. Ele tirou foto minha sem calcinha e eu perguntava ‘a foto não é só da tatuagem?’, mas ele respondia que não, que fazia parte do trabalho”, contou.
Em dado momento, a vítima lembrou que o tatuador levantou seu vestido e a viu sem sutiã.
“Ele tirou foto com meus seios aparecendo. Comecei a me sentir horrível e eu pedia para ele apagar as fotos, mas ele falava que isso era uma ofensa, como se eu fosse a errada da história.”
Fonte: G1













