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O fenômeno recorrente das queimadas da Amazônia, que se sucedem anualmente pelos mesmos motivos, este ano ganhou um componente bastante inflamável que responde pelo nome Jair Bolsonaro.

Por acaso, por falta de opção, ou como única opção viável para desalojar a organização criminosa que se reproduzia no poder, o dito cujo, quem diria, também passou a responder pela presidência da república, a despeito da resistência dos defensores da corrupção e das paixões personalistas.

Desde então, a partir do primeiro gesto, da primeira palavra, do primeiro discurso e da primeira medida do eleito, ou da falta dela, o que se viu foi a gloriosa imprensa nacional absolutamente desnudada de sua falsa e já inconvincente imparcialidade.

Bastou que fossem mexidos os números das verbas oficiais destinadas a camuflar o sistema que se impregna em todos os governos de direita, de esquerda, canhoto, destro, intelectual, iletrado, disléxico ou descompensado, para que o partidarismo jornalístico enrustido fosse explicitado.

Já sem muita esperança da costumeira negociação pelas portas dos fundos, passou-se a utilizar todas as mazelas da nação do futuro para alvejar o alvo exposto feito elefante em via pública.

Programas humorísticos com viés político-ideológico, revistas eletrônicas com sessões de humor macabro, jornais informativos manifestando opiniões pelas pautas e entonações explícitas dos respeitáveis apresentadores e até novelas e seriados com temáticas socio-políticas-humanas-patológicas.

Não obstante aos esforços inócuos em desconstruir a imagem que jamais existiu, o que se viu foi apenas o acirramento das posições, com os 60×40% se mantendo fiéis como torcidas de futebol.

O alvo fácil reagiu involuntariamente como bolo fermentado que cresce na mesma medida em que é sovado.

A antiga fórmula mostrou resultado inverso e apontou a necessidade de mais criatividade e reforço externo.

Nada como o sentimento preservacionista da vida humana, animal e vegetal para finalmente começar a demolir o monstro que começou a ser criado pelo próprio preconceito de que foi vítima.

Afinal, quanto mais se resumia o parlamentar do baixo clero e de tom debochado em frases curtas a mero coadjuvante de uma corrida de grandes atletas, mais fôlego de vencedor e também de merecedor ele conquistava.

Já no exaustivo meado do primeiro ano de aberrações, palavrões, confusões, incoerências e indecoro repetidos, mas muito bem assimilados e compreendidos pelos 60% representativos de quase 80% do PIB, apareceu finalmente o primeiro sinal de fumaça em meio à floresta amazônica, o pulmão do mundo, o termômetro do planeta, criador das chuvas e da fertilidade e único contraponto ao aquecimento global capaz de unir povos, religiões, ideologias e até maledicências.

Satélites, drones, helicópteros, aeronaves, barcos, navios, canoas, botas, chapéus, facões e canivetes como ferramental para a operação de guerra definitiva contra o descaso e o descompromisso para com o bem universal da humanidade em risco.

Finalmente o punhal afiado em mãos da militância diplomada e equilibrada seria certeiro e definitivo.

O caminho para a desconstrução do falso mito estava escancarado em meio às picadas abertas no coração da selva ardente em risco de extinção.

Nada mais tão agregador de opiniões e paixões.

No afã de bem ilustrar o caos inimaginável e imensurável, a primeira grande falha: a Amazônia tem o maior número de queimadas registradas nos últimos nove anos.

Claro, o ultimo maior desastre havia sido em 2010, em meio à transição do iletrado para o disléxico e do mensalão para o petrólão.

Não era privilégio de recorde meritório ao descompensado, apenas uma nova estocada perdida no abdome remendado.

O esforço não poderia ser em vão e muito menos a nobre causa desperdiçada.

O velho, calejado e experimentado Raoni citado como merecedor do Nobel da Paz era trunfo, só para que o afago o induzisse a aderir ao projeto de reversão improvável, menos a revelar mais um ledo engano: o sábio cacique de boa memória e sabedoria política foi claro e concluso ao lembrar que desde Lula os índios deixaram de ser ouvidos.

Não seria com Bolsonaro que a voz ativa seria restaurada, muito mesmo com o já cansado, decadente e desconhecido Sting longínquo dos áureos tempos.

As traições de amigos e inimigos e de afetos e desafetos se sucederam e até o Greenpeace foi categórico na afirmativa de que a dimensão dos incêndios provocou indignação em todo o mundo: “A Sibéria, um dos lugares mais frios do mundo, está em chamas. A Amazônia, um dos lugares mais úmidos do mundo, está em chamas. Precisamos agir rapidamente”.

Com dados de satélites, a Reality Check Team, equipe de checagem da BBC, se antecipou em citar quatro áreas: Brasil, Sibéria, Indonésia e África Central, concluindo que, embora os incêndios deste indigesto 2019 tenham causado danos significativos ao meio ambiente, eles foram muito piores no passado.

Passando pelo fogaréu que consumiu grande área habitada em Portugal, bem na portaria principal da Europa, sem qualquer possibilidade de se prever, evitar ou combater, nem que automóveis e seus ocupantes fossem torrados nas autoestradas de primeiro mundo, a cereja do bolo foram mesmo os incêndios florestais na Califórnia.

Lá, no berço esplendido do capitalismo equilibrado pela riqueza, no quintal do Vale do Silício, cujas chamas atingiram matas, vilas e condomínios milionários, sem que os modernos aviões de primeiro mundo fossem suficientes para combater minimamente os estragos, é prova de que o fogo, como a hipocrisia da imprensa, não possui ideologia, não respeita fronteiras, não se intimida com o poder e não tem complacência com a pobreza.

O fogo que não perdoa a mansão de uma estrela de Holliwood é o mesmo que consome a oca do índio isolado.

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