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A melhor definição sobre dentista está numa revista que não me lembro o título e muito menos a data: “Dentista é o profissional que ganha seu sustento com o suor do rosto alheio”. Ironia satírica à parte, essa máxima da sabedoria popular carrega significativa dose de verdade, pois para a grande maioria dos mortais o tratamento dentário é um martírio obrigatório de sangue, suor e lágrimas.

As pessoas formadas em odontologia, detentoras desta nobre profissão, entram na atividade ostentando o título informal de Doutor como prefixo do nome nas placas de clínicas e consultórios. Para ornamentar a fachada do prédio, costumam criar logomarcas estranhas, quase todas associadas a um enorme molar de três ou quatro raízes. Alguns chegam a combinar o nome próprio, aquele de batismo, com o formato do dente, criando verdadeiras aberrações da publicidade dentária.

Outra característica muito própria dos dentistas é o uso de intermediários para a comunicação com o seu cliente, que no caso se torna duas vezes paciente, pois não é fácil suportar um tratamento completo, tanto pelo sofrimento físico-mental como pelo custo monetário do serviço especializado. Atendentes vestidas de branco fazem a tradução da linguagem própria dos dentistas a seus clientes, que só encontram o profissional sob os holofotes do consultório obstruído por muitos equipamentos e instrumentos metálicos reluzentes.

O cliente-paciente, ou vítima, sequer reconhece o profissional que irá bisbilhotar suas entranhas a partir da cavidade bucal escancarada a força, pois é recebido por uma pessoa vestida de jaleco branco até os pés, de máscara que só mostra os olhos e as sobrancelhas e que sequer podem ser cumprimentadas por causa das luvinhas de silicone.

O sofrimento se inicia no acesso à cadeira de formato estranho e de movimentos múltiplos, mas que nunca se abaixa o suficiente para que o paciente possa ocupar o lugar de honra com facilidade. Tem aparência de cadeira elétrica cercada de fios, cabos, tubos e ferragens articuladas que assustam até os mais corajosos.

O primeiro movimento, de supetão, passa a impressão de se tratar de um instrumento de tortura, pois a vítima fica quase de cabeça para baixo, como no eficiente sistema do famoso pau-de-arara. Antes mesmo de se recompor do susto, é obrigado a abrir a boca ao máximo que as articulações mandibulares possam suportar, o tanto para que três ou quatro mãos e algumas brocas, esguichos e sugadores possam adentrar ao mesmo tempo o espaço da cavidade que dá acesso ao tubo digestivo.

Enquanto um equipamento perfura, corrói e faz polimento, outro vai aspirando tudo o que encontra pela frente, inclusive a fina pele interna da bochecha sacrificada ou adormecida pelas picadas anestésicas. Cada encostada do rolinho metálico perfurante na raiz exposta causa mais choque que rede de alta tensão, mas o paciente é obrigado a permanecer em silêncio, sem direito a reclamar pela boca repleta de dedos, espelhos e hastes com gosto de aço.

A linguagem da dupla que pratica essa espécie de tortura moderna é de códigos inaudíveis e a cada sussurro sob a máscara fina surge uma nova ferramenta maior, mais assustadora e perigosa. Em estado de alerta absoluto, o paciente-vítima é mantido imóvel, sem direito sequer a engolir o resíduo do cimento que sobra sobre a língua maltratada.

Alguns utilizam uma espécie de mordaça de borracha fixada em metais para tapar a boca do paciente e garantir acesso apenas ao órgão de marfim duro revestido de esmalte, mas cujas maxilas e mandíbulas entram em estado de dormência pela abertura exagerada a que são obrigadas. Outros puxam conversa ou fazem perguntas durante o martírio, apenas para aumentar o sofrimento pelas respostas que vêem à cabeça e não podem ser verbalizadas.

Numa sequencia rápida, com movimentos calculados e sem qualquer piedade e muito menos sentimento de culpa, usam as mais variadas ferramentas, algumas que parecem instrumentos de tortura medievais, com seguidos comandos que obrigam a vítima a abrir cada vez mais a maltratada boca de lábios ressecados e mucosas em abundante sangramento.

Mais de hora depois, mesmo com a úvula bastante maculada, com os palatos moles e duros adormecidos, a língua recolhida de medo e o suor escorrendo em abundância pela face salpicada de bicarbonato, mas com os molares devidamente restaurados com fios de fibra de vidro raiz adentro e recoberto de fina camada de cerâmica a preço de ouro, a vítima da tortura moderna salta da cadeira com uma ficha de agendamento para uma nova, dolorida e custosa sessão na próxima semana.

 

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