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O quintal da minha infância ficava em algum lugar do passado. Bem nos fundos de uma casa espaçosa de um bairro chamado Paraná, pertinho da igreja dedicada a Santo Antonio. Havia uma jabuticabeira, dois mamoeiros e um pé de manga. Subíamos por entre os galhos para chupar manga até lambuzar a cara. Tinha uma horta cultivada pelas mãos da minha mãe e que cultivo! Couve, repolho, espinafre, tomate, alface, tudo de primeira,  sem agrotóxicos. Uma pequena cerca de arame em torno do plantio avisava aos frangos que ali não era seu território e por incrível que pareça, as aves respeitavam aquele espaço.

Que microondas, que nada! Havia um forno de barro no fundo do quintal que era esquentado à lenha. Era lá que a minha mãe assava delícias caseiras que nunca mais vi igual. Retirava-se o carvão para colocar lá dentro fornadas de roscas açucaradas, pão caseiro, bolo de fubá que saiam daquele forno com jeitinho mineiro de coisa gostosa. Hoje, reconheço a praticidade do forno moderno. Mas não vejo nele a mesma  qualidade de assar gostoso como aquele saudoso forno de barro que ornamentava o nosso quintal.

Um quintal com muitos frangos e galinhas. Ao lado, um puleiro, onde as aves subiam para se recolher. Dormiam cedo como qualquer galinha. Naquele tempo não se utilizava o nome de “galinha” de forma depreciativa. Não tinha por quê. Quem mandava no terreiro era um galo todo emplumado e metido à besta, ciumento como ele só. Desandava em cima do frango que ousasse arrastar a asa para a sua galinha predileta. Pois não é que o bendito galo me acordava todos os dias com sua cantoria bem antes da hora da escola!

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Um dia eu me vingo dele, comentava. Ocorreu um eclipse parcial do sol por volta do meio-dia. O astro-rei foi se escondendo na semiescuridão enquanto galo e galinhas enganados pela natureza subiram no poleiro imaginando que a noite chegara. Foi divertido ouvir o galo metido a besta cantar fora de hora. Meia hora depois, passado o eclipse, o galo e as galinhas  desceram de volta, sem entender nada. Ao contemplar a trapalhada das aves foi minha vez de moleque arteiro caçoar do galo metido a besta e de suas galinhas barulhentas, que madrugada a fora me tiravam da cama.

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