Sou do tempo em que ainda não existia a Internet. Estudei no Horácio, o grupão da Rua Manoel Leão. Arteiro, como ninguém. Precisava de um emprego. Meu pai queria que eu fizesse o que eles chamavam de “datilografia”. Na minha infância, bancos e escritórios só davam empregos para quem soubesse escrever à máquina. Fui matriculado na escolinha que tinha seis máquinas para meia dúzia de alunos. Eu paquerava a ruivinha sardenta que ficava na máquina ao lado. O flerte era partilhado. As máquinas eram “Remington 12”. Enorme no tamanho e no barulho que faziam. Eu tinha dois defeitos: teimoso feito uma mula e só sabia escrever com dois dedos.

A professora repudiava o meu estilo. Dizia que o meu método era um “retrocesso na história da datilografia”. Está no meu currículo: já fui um Retrocesso Histórico. Tentou corrigir-me. Ao perceber que os dez dedos mais atrapalhavam do que ajudavam, acabou por aceitar que eu continuasse usando apenas os indicadores para teclar. Consegui um emprego no cartório do fórum da cidade. Veio o progresso tecnológico. As máquinas de esferas revolucionariam a datilografia no mundo. As esferas eram umas bolinhas que imprimiam as letras. Cada máquina trazia uma coleção de esferas, cada qual com um tipo diferente de letra. Tornei-me um bom datilógrafo, mas sempre teclando com dois dedos.

 Em São Paulo, ganhei do saudoso Padre Luis Ilc uma máquina portátil Olímpia, que ele trouxera da Alemanha. O presente foi porque eu produzia o jornalzinho da paróquia. Foi nela que datilografei  homéricas reportagens, saudosas crônicas e até cheguei a cometer algumas poesias que devem ter feito Olavo Bilac e Castro Alves virarem  no túmulo.

Por conta da tecnologia tive que abandonar a Olímpia. O divórcio foi amigável, mas até hoje ela conserva o brilho e a beleza. Gostaria que ela ficasse exposta na sala, como enfeite, mas a mulher rejeitou uma “coisa” daquela em cima do bufê. Hoje trabalho no meu computador Dell, de última geração, com monitor Soyo de 19 polegadas e com tela antiofuscante. A tecnologia evoluiu. Eu continuo escrevendo com dois dedos. Está no meu currículo. Já fui um Retrocesso Histórico.

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